Meu pai, 93 anos, diz que das quatro filhas que
teve eu sou a mais atilada para assuntos burocráticos. Por outro lado me chama
de irresponsável por correr meias-maratonas mundo afora.
Se minha mãe fosse viva, diria que eu era a
mimosinha exatamente por ser a menor. Ela, juntamente com minha falecida irmã
n° 3, foram as responsáveis pela escolha do meu nome. Contavam que era da
mocinha de uma novela “A Caldeira do Diabo”. Que me desse por contente, pois
pior seria se tivesse nascido homem: Sheik de Agadir, o mocinho de outra
novela, teria sido minha alcunha.
Meus três filhos dizem que já não sou tão
novinha assim, que cozinho mal e que às vezes tenho cara de braba. Deve ser
quando franzo o cenho pensando em como vou administrar a grana do mês ou em
como vou cobrar, sem melindrar, qualquer cliente. Detesto cobrar.
Meu marido me ama assim, teimosa do jeito que
sou. Desde o início, entre as trocas de livros e e-mails, concordou que melhor
seria morarmos separados, para o casamento durar. Ambos temos experiência no
assunto: um viúvo com quatro filhos e uma divorciada com três.
Minha parceira de trabalho diz que sendo bem
mais nova que ela, sou muito elétrica e que ela não consegue mais acompanhar
meu ritmo. Vive reclamando que tenho problemas graves com crases: sou generosa
demais e isso compromete seriamente meu diploma de Letras Português – Inglês. Ainda
alega que não sei valorizar nosso trabalho, embora siga fielmente a tabela da
Junta Comercial do RS para Tradutores Públicos.
Lord, o schnauzer de três anos que coabita
aqui, me olha com olhos de admirador absoluto e morre de ciúmes dos três gatos
espalhados pelos sofás da casa alugada.
Eu sou a Álison, 47 anos, mãe, esposa,
tradutora, corredora e futura escritora.
2 comentários:
É, lembro de ti muito antes da função do nome - o local do seriado americano, se não me engano, era Phayton Place! E teu carrinho de nenê era uma graça, parecia que tinha "salto alto".
Ter sido madrinha deste casamento foi outro detalhe maravilhoso decorrido desta convivência diária de mais de 6 anos.
E, se todos os problemas que surgirem forem do nível das crases, então podes crer: teremos que nos aturar até que a morte nos separe! Posso confessar? Me emocionei... bjs [MAmélia] - (atrapalhada com a identificação, então foi a que sei!)
Mamélia,
esta foi a apresentação criativa para a Oficina de Escrita. Tinha que achar um jeito dele ter uma ideia quem eu era, daí te botei no rolo :-) E foi bem num dos dias que tinhas brigado com minhas crases, ou com a falta delas ehehehehe
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