“Rancho Fundo”
Alison G. Altmayer
Moreno não fez nada fez além do que esperavam dele:
um dia largou a vida pacata no rancho para estudar na cidade grande. Queriam
que tivesse uma profissão e que desistisse de ser cantor sertanejo. Fosse outro
estaria exultante, afinal, quem não sonhava em ir para a capital?
Lá se foi Moreno, pronto para voltar antes
mesmo de ter subido no ônibus. Levava na mala umas poucas roupas e o violão. Até
o último ano de faculdade guardou a imagem dela, Morena, vista da janela do
ônibus: olhos escuros marejados como um espelho dos seus, lábios trêmulos,
cabelos de índia, enquanto acenava para ele dizendo, “Te espero, Moreno”.
Contaram-me que no apartamento modesto de
estudante havia uma janela revelando outra vista: a cortina de poluição que
saía da fábrica de fertilizantes. Esforçou-se para criar uma toada, tamanha a
fumaceira da cidade: “Para direita, vento tal. Para cá, cheiro infernal.” Mas a
cidade era pobre até mesmo para rima.
Com o tempo, Moreno fez amizades e passou a ser
regularmente chamado para embalar, com suas canções, os churrascos da turma. Enquanto
dedilhava o violão, cigarro no canto da boca e um trago no chão, cantava sobre sua
origem. Com os olhos cerrados, começava: “lá, um lugar bem mais longe que o fim
do mundo, tem o céu que é do azul mais profundo”.
Parece que estudara o suficiente para se
formar, nada mais que isso, porque seus sonhos eram outros. E ele conseguiu o
diploma, nem se sabe ao certo de que, mais feliz em fazer as malas do que em empunhá-lo.
Tinha pressa para voltar ao rancho, em se dedicar à música e tinha pressa, mais
que tudo, para se casar com sua linda Morena. Como todo jovem, tinha pressa para
viver.
Sob o sol quente, desceu do ônibus, tropeçando
nos degraus velhos, arrancou a mala da mão do carregador e entre um abraço na
mãe e um aperto de mão do velho, procurou por ela na estação rodoviária. Recorreu
os canteiros floridos da rua Principal, escrutinou os bancos da praça
Tiradentes, deteve o olhar em cada uma das tendas da Festa do Milho, mas nem
sinal.
Quando se é jovem, se tem pressa, até mesmo
para errar. E ela fora jovem, tivera pressa e não soubera esperar. Pobre como a
rima, casara-se com Alvo, um contador, sem ter a certeza de que o amor de antes,
voltaria um dia.
Hoje, Moreno é cantor sertanejo consagrado,
fala do rancho em que nasceu, de amores impossíveis, de tristezas sem fim. Traz
nos olhos aquele inverno da alma, o mesmo que eu, Morena, carrego desde que ele
partiu.
.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário