segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Oficina de Escrita Criativa - Desafio Conto sobre Música


“Rancho Fundo”
Alison G. Altmayer

Moreno não fez nada fez além do que esperavam dele: um dia largou a vida pacata no rancho para estudar na cidade grande. Queriam que tivesse uma profissão e que desistisse de ser cantor sertanejo. Fosse outro estaria exultante, afinal, quem não sonhava em ir para a capital?

Lá se foi Moreno, pronto para voltar antes mesmo de ter subido no ônibus. Levava na mala umas poucas roupas e o violão. Até o último ano de faculdade guardou a imagem dela, Morena, vista da janela do ônibus: olhos escuros marejados como um espelho dos seus, lábios trêmulos, cabelos de índia, enquanto acenava para ele dizendo, “Te espero, Moreno”.

Contaram-me que no apartamento modesto de estudante havia uma janela revelando outra vista: a cortina de poluição que saía da fábrica de fertilizantes. Esforçou-se para criar uma toada, tamanha a fumaceira da cidade: “Para direita, vento tal. Para cá, cheiro infernal.” Mas a cidade era pobre até mesmo para rima.

Com o tempo, Moreno fez amizades e passou a ser regularmente chamado para embalar, com suas canções, os churrascos da turma. Enquanto dedilhava o violão, cigarro no canto da boca e um trago no chão, cantava sobre sua origem. Com os olhos cerrados, começava: “lá, um lugar bem mais longe que o fim do mundo, tem o céu que é do azul mais profundo”.

Parece que estudara o suficiente para se formar, nada mais que isso, porque seus sonhos eram outros. E ele conseguiu o diploma, nem se sabe ao certo de que, mais feliz em fazer as malas do que em empunhá-lo. Tinha pressa para voltar ao rancho, em se dedicar à música e tinha pressa, mais que tudo, para se casar com sua linda Morena. Como todo jovem, tinha pressa para viver.

Sob o sol quente, desceu do ônibus, tropeçando nos degraus velhos, arrancou a mala da mão do carregador e entre um abraço na mãe e um aperto de mão do velho, procurou por ela na estação rodoviária. Recorreu os canteiros floridos da rua Principal, escrutinou os bancos da praça Tiradentes, deteve o olhar em cada uma das tendas da Festa do Milho, mas nem sinal.

Quando se é jovem, se tem pressa, até mesmo para errar. E ela fora jovem, tivera pressa e não soubera esperar. Pobre como a rima, casara-se com Alvo, um contador, sem ter a certeza de que o amor de antes, voltaria um dia.  


Hoje, Moreno é cantor sertanejo consagrado, fala do rancho em que nasceu, de amores impossíveis, de tristezas sem fim. Traz nos olhos aquele inverno da alma, o mesmo que eu, Morena, carrego desde que ele partiu.


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