Lívia
Alison G. Altmayer
Pingos grossos batem contra a vidraça e o vento vai se esgueirando pelas imperfeições da janela. No quarto há apenas cama, cômoda e uma estante com livros e algumas bonecas esquecidas. Pelo chão, todos os lápis e canetinhas foram cuidadosamente espalhados. Embaixo da cama, ao lado dos chinelos de pelo ralo, um copo de água para o anjo da guarda, trocado todos os dias.
Dormindo, Lívia gira a cabeça de um lado para outro no travesseiro. Embora os olhinhos estejam fechados, há um movimento nervoso sob as pálpebras. O suor escorre pela fronte e faz com que seus cachinhos grudem no pescoço. As mãos crispadas largam as dobras amarrotadas do lençol puído e sobem ao peito. Ela cruza as perninhas vigorosamente de modo que seus pés nus mostrem os dedos dobrados e os músculos tesos. Lívia treme, abre a boca e o grito cede lugar a um sussurro:
- Não.
Raios cortam o céu, penetrando a escuridão das paredes encardidas, que um dia foram de algum tom de rosa. Aos poucos vai surgindo a batida cada vez mais forte de uma bengala no corredor do casarão. Lívia cautelosamente percorre o aposento com o olhar, detendo-se na porta entreaberta. Seus olhos esbugalhados se fixam no vulto apoiado no batente.
A porta é fechada com todo o cuidado e o vulto trôpego se aproxima da cama, resvalando nos lápis e canetinhas, chutando-os para um canto qualquer. A garrafa de bebida barata cai da mão e derruba o copo de água. Enquanto uma mão busca apoio na bengala, a outra enrugada e trêmula tateia a cama em busca de Lívia, encolhida sob os lençóis.
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