quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Tentativa de Conto - Die Moldau


Die Moldau

Alison G. Altmayer

Andrea entrou em casa tiritando e molhada pela garoa teimosa. Enquanto bebericava um chá quente de ervas, permitiu que a obra Die Moldau, de Smetana ocupasse todos os aposentos da casa e majestosamente tomasse conta de si.


Quando foi apresentada para a música, lá nos idos de 1970, Andrea se enamorou logo. Ora rádio, ora toca-discos, e aos domingos aguardava ansiosa os videoclipes do Fantástico. Escutava Beethoven e Debussy para estudar e ler; Donna Summer no volume máximo para dançar ao redor da mesa, na sala de jantar, e Julio Iglesias para acompanhar o ritmo da família. 



Nunca ligou para mobília ou moda, mas o som era primordial. No tempo do toca-discos, o charme ficava por conta de um scottish terrier de madeira, disposto em cima da agulha, para driblar as possíveis imperfeições dos LPs. Já com os CDs, Andrea se divertia dando uma baforada para em seguida, acariciá-los com um paninho de algodão branco até que se parecessem com bolinhas de sabão. Depois, arrumava-os meticulosamente na estante, por gênero e em ordem alfabética crescente. 



Uns meses antes do filho Jorge nascer, ela lembra de ter chegado do trabalho, suada pelo verão de Itabira e sentar-se no chão, em frente ao som. Ligara o aparelho e inexplicavelmente baixara o volume, porque lhe incomodava. Achou que era coisa do dia, do calor, da vida que levava. 



Parecia que não era mais som o que ouvia, era barulho. A furadeira de um vizinho novo num domingo pela manhã ou o preparo das fundações do prédio no terreno ao lado. Às vezes, o barulho era como um cãozinho deixado sozinho no apartamento de cima o dia inteiro. E assim, foi baixando mais ainda o volume para na sexta-feira nem lembrar de escutar as dez mais da Rádio Pontal. 



O barulho assumia agora o mundo de Andrea, inundava, entrava pelos ouvidos e escorria pelo corpo. Era mundo demais ocupando sua pouca forma. Ela transbordava daquilo que não era e  faltava espaço para a música.



Numa fase difícil, vendeu vinte e sete CDs para o sebo, surpreendendo-se por uma lágrima furtiva ao receber as parcas notas em troca.



Jorge nasceu numa manhã chuvosa e fria de inverno. Mostrou-se um menino calado e sossegado, mesmo quando aprendeu a falar e a escrever. Cursou Letras e Direito e conheceu Cíntia. Nunca se abalou com o barulho silencioso de Andrea, nem com a grossa camada de pó sobre os CDs na estante, nem mesmo com a Adriana Calcanhoto ter virado vizinha do Pato Banton. Casou-se e foi morar em Jundiaí. 



Nesse dia, a solidão, que começou lá nos últimos meses de gravidez, transbordou finalmente pela alma e, por dezesseis dias, Andrea chorou sem parar. A cada lágrima que molhava o rosto nebuloso, o barulho se esvaziava, assim como vai ficando vazio o ônibus que larga os passageiros a cada ponto. Até que, no ponto final, insinuam-se pelas lágrimas secas, os acordes iniciais de Die Moldau; escalam sofregamente os olhos vidrados na janela do quarto e, sem resistência, preenchem Andrea serenamente. 


Um comentário:

Ricardo Hoffmann disse...

Bravo!

Li ouvindo Die Moldau.

Amei

Semana de 20 a 26 de março de 2023

  Esta semana foi cheia de exames: cardiológicos, de sangue, teste de esteira. Encaixei a academia e os treinos e deu tudo certo no final.  ...