O vento frio e úmido soprava contra o cais, prenúncio de um outono que se aproximava e Pedro se encostou na balaustrada do barco, esperando. Impreterivelmente dia sim, dia não, no frescor da madrugada, ela dobrava a esquina das docas correndo, trazendo no encalço um vira-lata baio. Quando ainda estava escuro, como hoje, ela corria olhando para o paralelepípedo imperial irregular. Em outras épocas, vinha de cabeça e ombros erguidos. Mas independente de tudo, ela sempre acenava um bom dia educado e era a partir daquele instante, daqueles segundos em que a mãozinha branca se agitava no ar, que o dia de Pedro tomava cor. Ele se acostumara a ficar na proa, tomando café e esperando ela passar, para só depois começar a distribuir as tarefas dos pescadores. Se era Lara, Clara, ou Mara, ele não sabia. Se sofria, se era feliz, se amava ou era amada. Que dores trazia na alma que ele só podia desejar não tivesse? Que histórias tinha para contar nas noites infinitas que eles nunca tinham passado juntos?
A rede é atirada no convés e os peixes vão se espalhando ao redor. Meio da tarde, mas para os pescadores era o fim do dia e cansado, Pedro nota na garrafa vazia que rola até seus pés. “Soledade” - pelo rótulo elegante e pela garrafa delicada fica evidente que não é do tipo de cachaça à venda no Bar do Onofre. Coisa fina, Pedro.
“Seja você quem for, quando encontrar esta garrafa e descobrir esta mensagem, sente-se e aceite que você é aquele que eu queria tanto sentado aqui ao meu lado, tomando um chimarrão, enquanto as florezinhas roxas da corticeira fazem as vezes de tapete para nossos pés nus. Porque eu acredito em destino. Estou só e sou tão sozinha ...”
Assim começava a mensagem de Sara, a escritora solitária, que amarrou a carta com fita mimosa lilás e a colocou criteriosamente dentro da garrafa de cachaça lançada aos meus pés. O perfume floral do punho dela se misturando com o da cachaça de boa qualidade e dos peixes de alto mar trazidos pela rede de pesca, ainda atirada ali no convés do meu barco. Mergulhei na leitura, apesar dos termos difíceis salpicados ao longo da história da moça. Perdi o fio da meada e aproveitei um momento entre “estupefata” e “sofreguidão” para me abandonar no esplendor do pôr-do-sol.
“...e amanhã vou jogar a garrafa com esta carta lá na ponta dos Molhes e vou soprar bem forte, mas bem, bem, forte, para que ela vá e te encontre. Depois, volto para meus personagens e enredos, me perdendo no fio da meada da história e tendo que parar para reorganizar as ideias. Sabe como eu consigo?...”
Até agora não sei bem se foi a rajada do vento frio do fim de tarde, se foram as palavras dela, se foi a abstinência dos últimos tempos, mas minhas mãos tremeram e suaram e me agarrei na folha como se fosse um náufrago se agarrando numa corda. Também não sei se foi algum borrifo do canal ou um cisco trazido pelo vento, mas meus olhos estavam úmidos.
“... eu pego o Sansão, calço os tênis e saio para correr pelas docas. Dia sim, dia não.”
Destino.

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