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| Ilustração by Debóra Pereira |
É dia de feira, terça-feira.
Dia de feira no balneário e arrasto os riders
depois de encarar o supermercado e o banco sob um sol escaldante. Vale lembrar
que aqui dispenso o carro e o carrinho de feira – tudo é carregado no muque
mesmo e quando dá, de bicicleta. Essa bolsa ecológica que ando usando, por
exemplo, ganhei de uma prima que mora nos states: a qualidade e o tamanho são excelentes. Fiz
cara de paisagem para a estampa do elefante azul e roxo dentro de um sol de
raios verdes, afinal ela é importada, é bem melhor, mesmo.
Já no caminho, decido não percorrer a feira até
o final, como fazia no início do veraneio. Não que ela seja longa, não. Por
míseras três quadras, os feirantes estendem ou lonas laranjas, ou modernos sombrites.
No inverno, sem as lonas, nem sombrites, por quadra e meia. Minha
preguiça no momento fica por conta do calor mesmo, fazendo-me delimitar o
perímetro das compras nas primeiras três bancas: a do alho-poró e da
couve-manteiga, cultivados num sítio de produtos orgânicos. Depois, a da
esquerda, onde as frutas são meia-boca, mas os atendentes são ágeis. Por
último, a da direita, onde tanto as frutas quanto os atendentes agradam. Arrasto-me
com pressa, pois a miragem do 22°C no marcador do Split me persegue.
Eu só não contava que, entre um lado e outro da
feirinha, meus olhos fossem escorregar para uma folha de papel branca, dobrada
em quatro partes, no chão. Largada ali ou caída de algum bolso, tanto faz,
estava ali dando sopa... esperando minha mão rasteira. Sou um bicho curioso
mesmo. Bisbilhoteiro, diria minha mulher. Equilibrei melhor a bolsa enorme,
agachei-me sob joelhos estalantes e comprimi a mão suada sobre o papel. Os
dedos sentiram o papel mais polpudo do que uma simples folha. Como não
aguentaria a curiosidade até chegar em casa, puxei uma senha na banca do peixe
e me encostei no plátano. Chamavam o 15 e eu continuava perseguido pelo oásis
do split: 22. Cocei a panturrilha com o dedão do pé, enquanto desdobrava o
papel com sofreguidão, cuidando se alguém andava procurando algo no chão.
Saltaram de dentro, quase espiralando sobre o gelo derretido do camarão, uma
nota de cinquenta, uma de vinte, uma de cinco e duas de dois. Feira
garantida. Oh, beleza! Oh, dia lindo! Escorreguei as notas para
dentro da pochete, enquanto notava umas frases espalhadas pelo papel.
“Querida Márcia, obrigada pela gentileza de
responder sutilmente o que não tive a coragem de te perguntar. Na hora de sair,
esqueci de pagar, me perdoa. Com carinho, Ane”
Márcia e Ane, de verões antigos. Ecos da
adolescência com nomes que a gente gritava nos portões. Uma hora para ir ao cinema, lotando duas
fileiras, chuleando para sentar ao lado da paquera. Um verão para assistir, umas
dez vezes, Grease. Outro, para ver Rocky Balboa, outras dez. Só a nossa
turma tomava conta de duas fileiras. Outra hora, geralmente à tarde, para andar
de magrela pelas ruas de areia.
Hoje, a Márcia quem chama é a minha mulher
quando quer encomendar merenguinhos recheados.
Mas a outra, ah! Ane, Ane, Ane. Evaporada no
tempo. Soprei o nome por entre os lábios secos: Ane. Ainda sussurrei
mais e mais vezes. Esse nome que estivera tanto tempo acorrentado, escondido,
enegrecido. Saboreei o som, como se a estivesse chamando numa tarde qualquer,
verões e verões atrás. Na garagem da casa dela, naquele espaço onde a luz não alcançava, nos agarrávamos grudados contra a parede branca.
Será que a Ane voltou, comprou merenguinhos,
perguntou por mim, ficou atordoada com a resposta e saiu sem pagar?
- Vinte-e-dois!
Alison Guedes Altmayer
16 de março de 2017 - Escrita Criativa - Projeto 2017

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