terça-feira, 11 de julho de 2017

Capítulo III - Because I'm happy (Ana)


Because I’m happy


Estar aqui no balneário depois de tanto tempo é como ir folheando um álbum de fotos antigas: algumas páginas folheiam-se rapidamente, outras ficam abertas enquanto o café vai esfriando até a rede diminuir o balanço. Estou em uma idade em que olhar o passado me faz olhar pelas janelas, para além da vidraça empoeirada. Não é por arrependimento, por tristeza, por saudosismo. É diferente. Fico comparando as diferentes fases da minha vida, meus distintos eus que foram se perdendo, me descascando até restar a essência. Claro, essa essência sempre esteve lá, desde o princípio e acho que ela se deixa mostrar mais, em um ímpeto de ousadia, durante a adolescência, para depois se encolher mediante o que a vida impõe.
Fui muito feliz na minha adolescência, me sentia como eu deveria ser. Sei lá, será que quero dizer em harmonia? Meu dedo contorna as bordas arredondadas da foto em sépia. Contemplo a cena com olhos demorados, o queixo trêmulo não sabe se eleva um sorriso ou se permite o choro livre.
Na bagageira da bike, vejo-me naquele meu vestido preferido – aquele que primeiro virou uma manta para o sofá, depois uma bolsa e por último, ficou eternizado no forro da moldura do espelho do quarto. Os cachos ainda persistem, embora menos esvoaçantes e ganharam uns fios brancos, agora disfarçados pelas luzes. Os pés de bailarina enfiados em rasteirinhas de couro. Dessa foto restou a essência: eu e o amor interrompido.
Sinto uma fisgada dentro de mim. Sabe aquele fincão inesperado bem no âmago? Aquela coisa que faz o mundo silenciar, escurecer e que nos rouba a respiração. Como quando recebemos a notícia da morte de alguém próximo ou ganhamos um sorteio. Às vezes, como quando abrimos um presente e voilá: um filtro dos sonhos, ou uma lavanda, ou uma almofada de elefante.
A vida tem dessas coisas. Levei as andanças de bike para a vida. Hoje com muito menos destreza que naqueles tempos. Mas vamos falar de muito menos mesmo. Encaro as ciclovias na capital como uma Amelia Earhart. A bike me domina: não posso tirar uma mão do guidão, carregar sacolas, abanar para os conhecidos, não posso passar muito perto de outras bikes, tampouco vencer a areia fina ou virar a cabeça para ver se vem carro. Depois de secar a lágrima na foto, me lambuzo com um merenguinho recheado e um sorriso se insinua ao lembrar a cena de hoje.
Pedalava pela beira da praia, mente vazia, cantarolando “Because I’m happy”. Um pouco antes de começar a atravessar um riacho, desses que se formam entre as ruas de trás das dunas e o mar, um basset se soltou da coleira de alguém e veio na minha direção. A cena era mais ou menos assim: eu tinha que cruzar o riacho e o basset tentava fugir do dono enfurecido. O baixinho orelhudo balançava as orelhas como um rabo de cavalo de uma corredora faceira, eu balançava o guidão em busca de equilíbrio, sobre a areia do fundo do riacho. O dono balançava a coleira, correndo. Coisa de segundos intermináveis, quando os espectadores na praia pareciam ter virado estátuas e tudo ficou borrado. O silêncio que ressoava nos meus ouvidos só era interrompido pelos gritos do dono, “Moça, não te preocupa”, e o splash-splah das patinhas do basset na beira d’água, “ele não gosta de bike, mas também não morde”. Grande consolo. Em pensamento, xinguei o cara, a família dele e praguejei contra todos que levam cães à praia. E acho que este foi meu erro: travar essa luta mental contra o dono do cachorro e perder o foco no guidão e na areia pesada, porque na sequência, o cachorro avançou de tal modo que quando me dei conta, a praia estava deitada com o mar chocolate bem na altura dos meus olhos. Meus cachos longos, empapados de areia e água do mar.
Caí no riacho do gelo, num domingo de janeiro, 13:07 h, com um basset pendurado no meu tornozelo e o orgulho perdido no meio de tudo.

Alison Guedes Altmayer
Abril 2017

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