Because I’m happy
Estar aqui no balneário depois de tanto
tempo é como ir folheando um álbum de fotos antigas: algumas páginas
folheiam-se rapidamente, outras ficam abertas enquanto o café vai esfriando até
a rede diminuir o balanço. Estou em uma idade em que olhar o passado me faz
olhar pelas janelas, para além da vidraça empoeirada. Não é por arrependimento,
por tristeza, por saudosismo. É diferente. Fico comparando as diferentes fases
da minha vida, meus distintos eus que
foram se perdendo, me descascando até restar a essência. Claro, essa essência
sempre esteve lá, desde o princípio e acho que ela se deixa mostrar mais, em um
ímpeto de ousadia, durante a adolescência, para depois se encolher mediante o
que a vida impõe.
Fui muito feliz na minha adolescência, me
sentia como eu deveria ser. Sei lá, será que quero dizer em harmonia? Meu dedo
contorna as bordas arredondadas da foto em sépia. Contemplo a cena com olhos
demorados, o queixo trêmulo não sabe se eleva um sorriso ou se permite o choro
livre.
Na bagageira da bike, vejo-me naquele meu
vestido preferido – aquele que primeiro virou uma manta para o sofá, depois uma
bolsa e por último, ficou eternizado no forro da moldura do espelho do quarto. Os
cachos ainda persistem, embora menos esvoaçantes e ganharam uns fios brancos,
agora disfarçados pelas luzes. Os pés de bailarina enfiados em rasteirinhas de
couro. Dessa foto restou a essência: eu e o amor interrompido.
Sinto uma fisgada dentro de mim. Sabe aquele
fincão inesperado bem no âmago? Aquela coisa que faz o mundo silenciar,
escurecer e que nos rouba a respiração. Como quando recebemos a notícia da
morte de alguém próximo ou ganhamos um sorteio. Às vezes, como quando abrimos
um presente e voilá: um filtro dos
sonhos, ou uma lavanda, ou uma almofada de elefante.
A vida tem dessas coisas. Levei as
andanças de bike para a vida. Hoje com muito menos destreza que naqueles
tempos. Mas vamos falar de muito menos mesmo. Encaro as ciclovias na capital
como uma Amelia Earhart. A bike me domina: não posso tirar uma mão do guidão,
carregar sacolas, abanar para os conhecidos, não posso passar muito perto de
outras bikes, tampouco vencer a areia fina ou virar a cabeça para ver se vem
carro. Depois de secar a lágrima na foto, me lambuzo com um merenguinho
recheado e um sorriso se insinua ao lembrar a cena de hoje.
Pedalava pela beira da praia, mente
vazia, cantarolando “Because I’m happy”. Um pouco antes de começar a atravessar
um riacho, desses que se formam entre as ruas de trás das dunas e o mar, um
basset se soltou da coleira de alguém e veio na minha direção. A cena era mais
ou menos assim: eu tinha que cruzar o riacho e o basset tentava fugir do dono
enfurecido. O baixinho orelhudo balançava as orelhas como um rabo de cavalo de
uma corredora faceira, eu balançava o guidão em busca de equilíbrio, sobre a
areia do fundo do riacho. O dono balançava a coleira, correndo. Coisa de
segundos intermináveis, quando os espectadores na praia pareciam ter virado
estátuas e tudo ficou borrado. O silêncio que ressoava nos meus ouvidos só era
interrompido pelos gritos do dono, “Moça, não te preocupa”, e o splash-splah
das patinhas do basset na beira d’água, “ele não gosta de bike, mas também não
morde”. Grande consolo. Em pensamento, xinguei o cara, a família dele e
praguejei contra todos que levam cães à praia. E acho que este foi meu erro:
travar essa luta mental contra o dono do cachorro e perder o foco no guidão e
na areia pesada, porque na sequência, o cachorro avançou de tal modo que quando
me dei conta, a praia estava deitada com o mar chocolate bem na altura dos meus
olhos. Meus cachos longos, empapados de areia e água do mar.
Caí no riacho do gelo, num domingo de
janeiro, 13:07 h, com um basset pendurado no meu tornozelo e o orgulho perdido
no meio de tudo.
Alison Guedes Altmayer
Abril 2017
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