Welcome to the Hotel California
Estava aqui deitado na rede, olhando a copa dos
plátanos e vendo as moscas dançarem, quando uma nuvem laranja encobriu minha
rede e o saibro encrustou a pele do rosto. Não deu tempo nem de xingar o bando
de gurias que já ia lá na esquina, voando em barras-fortes. E como uma ideia
puxa outra, a barra forte me trouxe lembranças dos tempos de adolescente nesse
mesmo balneário.
Tínhamos uma turma grande de guris e gurias e
suas respectivas bicicletas. Era o dia inteiro para cima e para baixo,
percorrendo as ruas e a avenida central. Lá na pré-história, quando no bolso, a
única coisa que havia era dinheiro para um picolé. Foram tempos singelos que deixaram
sulcos na alma. Eu era o Sérgio da Ana. Ela era a Ana do Sérgio.
Pegava a magrela, uma barra-forte azul com
freio contra, e disparava pelas ruas de trás. Ia e vinha com a camiseta de
física pendurada no ombro, cheio de grau carregando na bagageira a Ana. Ela se
agarrava no banco e fincava nas pedanas, os pés de bailarina. Eu largava as
mãos do guidão e gingava os ombros ao som dos hits de “Grease”. Os cachos
escuros da Ana esvoaçavam e o vestido indiano quase se enroscava na roda. Eu e
a Ana. A Ana e eu. Verão de oitenta e alguns, no auge dos nossos 15 anos. O
álbum com essa foto está em outra casa, em outro quarto, em outra época. Incrível
isso.
Passei direto no vestibular, porque depois que
a Ana se foi para a Amazônia, eu só sabia estudar e estudar. Consegui me formar
padrão com a ajuda dos óculos de aro redondo e alguma bebida. Nas primeiras
férias do banco, me toquei para Manaus. Quando me dava conta, a mão já fugia
estendida em direção a qualquer cacho negro esvoaçante. Várias vezes enlacei
cinturas finas em vestidos indianos, para logo em seguida, me desculpar. A Ana
se perdeu na Amazônia, foi abduzida, casou com algum índio, sei lá.
Coço a barriga e sinto preguiça para levantar
da rede e me arrumar para o jantar comemorativo a anos e anos de formatura. Trocar
essa camiseta de física por uma camisa social, minhas bermudas pela calça de
friso e esses chinelos por sapatênis é um suplício. É quase como enfrentar a
fila do correio do centro, sem Split e sem nada para ler. Escolheram justamente
o clube do balneário, onde o Sérgio da Ana e a Ana do Sérgio dançavam em roda e
depois ao som de “Eagles”, abraçados, na pista oval. Por isso, quando
minha esposa ameaçou dançar, aleguei uma dor no joelho. Bem, isso foi o que me
ocorreu dizer na hora.
Alison Guedes Altmayer
Março 2017
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