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quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Regime Fechado


[Exercício de Escrita Criativa – letra de música servindo de base para um conto. Fonte: https://www.letras.mus.br/simone-simaria-as-coleguinhas/regime-fechado/]


“É bandido, esse meu coração
Eterno prisioneiro da paixão”

Timóteo conheceu Jurema num trailer de lanche, aquele na Buarque de Macedo quase com XV de Novembro. Ele, buscando dois xis-coração, ela um galinhão completo. Entre pães, molhos e complementos, trocaram olhares e a coisa acabou num beijo molhado embaixo da parada de ônibus, antes de ir cada um para sua casa. Jurema dividiu seu lanche com Juvenal. Timóteo, com Lucimara. E a cada escorrida de molho pelo canto da boca, lembravam do sabor da língua do outro. Na semana seguinte, como não poderia deixar de ser, encontraram-se no trailer e trocaram números de WhatsApp – daí para um turbilhão de mensagens calientes, foi questão de pouco tempo. Enquanto o marido dela assistia aflito ao Inter se enterrar na segunda divisão, e enquanto a mulher dele fazia a depilação semanal, os dois se esfregavam e tudo mais dentro do corsa rebaixado. E a coisa foi encorpando num crescendo que Timóteo começou a sentir a pressão. E também pavor. Na véspera do dia dos namorados, fincou o pé e avisou:

- Não largo da minha mulher!

        Jurema, pensou e pensou, o tanto que lhe era possível pensar e acabou desabafando, por áudio do WhatsApp:

- Alô, eu tô ligando só pra dizer que roubar um coração é caso sério! – Escuta-se ao fundo a barulheira de secadores de cabelo e a algazarra da mulherada pelo novo tom de Risqué.

- Te acalma, vamos conversar melhor, de noite, lá no trailer. – Foi o áudio de Timóteo, meio aflito já.

- Vou te adiantando: eu deixo esse cara, cê larga essa mulher. E a gente vai viver a vida como Deus quiser. Sem dar satisfação da nossa relação, nem balcão do lanche do alemão!

     No trailer, seu Osvaldo limpava as mãos no pano de prato enrolado no pescoço e dizia: se acalmem os dois! Mas a discussão entre os amantes seguiu acalorada. A mulher despenteava os lisos de chapinha e apontava pro amante com suas garras rosa pitanga. Ele só sabia abaixar a cabeça e dizer: não posso mais, não posso mais.

        No meio dessa baderna, toca o celular dele:

- Alô, eu tô ligando só pra te dizer, que eu tô dando queixa de você. Tô na delegacia e o polícia disse que o caso não tem solução: é adultério ou traição.

      Nem Jurema, nem Timóteo contavam com que a mulher dele fosse escutar os áudios e zunir para a delegacia. Escutava-se desde lá, da Avenida Pelotas até a Buarque, Lucimara batendo os calcanhares no chão. No caminho, deu de mão num pé de cama jogado na lixeira e, para enfurecê-la um pouco mais, resvalou num cocô volumoso, e ainda quente, de cachorro. E assim, armada e com os calçados sujos, chegou no trailer de lanches do alemão.

    Com o pé de cama, ela ia batendo no marido, enquanto ele protegia a cabeça com as mãos. A turma do deixa-disso puxava a coitada pela cintura, mas a fera descabelada estava se sentindo a própria fortaleza e toda vez que se soltava, partia para cima de Timóteo. Numa dessas, enganou os bobos e arrancou um tufo de cabelos de Jurema. Segue-se mais uma tentativa de apartar a briga e a coisa foi ficando feia mesmo. Timóteo caído no chão, recebeu mais uns chutes, sabe-se lá se da mulher. Jurema, a amante, com o escalpo ralo em cima da orelha e um rastilho de sangue nas bochechas. Nesse momento chegam os homens. Vão todos parar na delegacia: marido, amante, mulher, dono do trailer, turma do deixa-disso. O sobrado da Civil se viu abarrotado, cheirando a sangue, ranço de lanche e algo mais. Depois de muito ouvir e pouco escutar, o delegado dá um tapão na mesa e vocifera:

- Enquanto não se acalmarem, vão ficar detidos aqui.

- Isso seu Delegado, concorda Jurema, diga que nossa sentença vai ser viver na mesma cela, porque os dois estamos sendo acusados de adultério.

     O delegado, incrédulo, pensa que a essa hora poderia estar em casa, pernas na mesinha, umas Brahma na geladeira, outra na mão, e o Inter subindo no campeonato. Pensa que inclusive, se tivesse passado no concurso, poderia estar apitando o jogo. Apitando o campeonato brasileiro e apanhando dos corintianos. Na Bombonera, sendo vaiado pelos Hermanos. Na Europa, apitando um Manchester United x Barcelona. Mas não, está aqui, numa delegacia na Avenida Pelotas, com uma doida, um prevaricador e uma corna.

- Seu Delegado, seu Delegado – suplica Jurema – queremos ser condenados a viver compartilhando prazer, na cela da nossa paixão.

- Cala a boca, senta aí! – são as ordens do delegado – Quer chamar seu advogado?

- Não quero advogado! – responde. Vira-se para o amante, o pobre Timóteo e declara:

- Quero regime fechado com você, amor.

     O policial encostado na porta revira os olhos. O escrivão mal consegue disfarçar o riso. Só Timóteo que está cabisbaixo e com as mãos entrelaçadas sobre os joelhos. A amante ainda tem mais a dizer:

- Nós somos bagunçados e reféns desse pecado. Não tenho culpa, seu Delegado, pois é bandido, esse meu coração. Um eterno prisioneiro da paixão.

         O silêncio sepulcral na sala lotada somente é quebrado quando ela sentencia:

- Por isso, vou mandar a mulher dele pro caixão! – grita, apontando para Lucimara, do outro lado da sala.

        A ação durou segundos (ainda bem, porque se durasse mais talvez virasse tragédia). O alemão do trailer, do banco do corredor, viu Lucimara, a mulher de fato, se agachar, o policial jogar a mão no coldre, o delegado se levantar, mas a moça foi mais rápida. Tirou o calçado ainda com a merda grudada e acertou a amante do marido em cheio.

        E nisso levanta todo mundo e o alvoroço recomeça.

Alison Guedes Altmayer – 13/9/17

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

8ª Semana correndo e anos escrevendo



by Alison - The Wind

Correndo
Começando hoje a 8ª semana de retorno às corridas - lá se foi 1 Kilo. É pouco, mas é algo. Na última corrida da semana passada cumpri com a meta de aumentar 1Km, indo até a Domingos de Almeida com Presidente Vargas. Intercalando cada vez mais corrida e menos caminhada, estou agora percorrendo 8Km. O dia estava lindo, diferente de hoje que está nublado e muito úmido (100%). Já estou saindo para correr meia hora mais tarde por conta do sol.

A intenção é continuar os 8Km, 3x semana por umas 2 semanas, até o corpo se acostumar. Preciso rever a playlist!

Escrevendo
Nosso grupo Escritores de 5ª tem um blog onde todos publicam textos próprios de tempos em tempos. Na 6ª feira entrei com uma crônica minha de 2016 sobre a casa do Cassino. Gostei muito da repercussão que teve - e atribuo tanto ao quanto meu pai era conhecido quanto à minha escrita. Que seja uma homenagem aquele que está sempre presente na minha vida.

Estou agora terminando o projeto de 2017 --> um romance de quase 100 páginas, ainda sem título. Esta semana devo escrever o capítulo final e encomendar 2 gravuras com a desenhista: da personagem Ana e a gravura final da foto em família no lançamento do livro do Gilnei. Pretty exciting!

Leituras
Li e amei "O Estrangeiro" de Albert Camus e engatilhei em "O Simpatizante" de Viet Thanh Nguyen (Pulitzer 2013). Estou encantada com o estilo desse autor, novo para mim. A capa no Brasil ficou muito mais linda, comparem:


 




terça-feira, 15 de agosto de 2017

Meu ícone (mulher de Sérgio)


O ícone


Retangular, fininho, em pé, atraente, mega caro – mas preciso de um. Brilhando na vitrine, branco, preto, dourado, colorido. Devem ter sido feitos para atrair todo mundo. Te fazer desejar ter um. Te fazer economizar, roubar do marido, aceitar o erro no troco, limpar as economias no banco. Só pode. Esse frenesi por uma caixinha de surpresas. Vício. Cigarro a cada meia hora, Zap-Zap a cada quinze minutos. Novela das 3, das 6, das 7, das 9, “fêici” de hora em hora. Preciso de um desses. Sou mesmo uma ET. Nunca passei o dedo numa tela, dessas dos ícones e sem teclas. Como o da Vera, o da Simone, da Neuza. Destrinchar a tecnologia. Curvar a cabeça o tempo todo. Metida, enfiada, perdida, ofuscada pelo brilho do aparato. Preciso de um, dos mais modernos. PRE.CI.SO. Ele está na minha mão, morno já, imóvel, escuro. Basta uma cobrinha com o dedo e ele acorda, chora, diz que quer comida. Um tamagochi. Um nenê que quer atenção. Vou entrar no grupo das gurias no Zap-Zap. Já pensou? Eu no Zap-Zap! Que nem o Sérgio! Bah, que nem o Sérgio! Sentada no sofá, mando uma mensagem: psiu, Mozão, que tal mais tarde...? e ele da poltrona, daquele jeitão dele: ai nêga, mas tu, hein? O celular: uma ponte. Eu no sofá, Sérgio na poltrona. Escrevo aqui, sai ali. Um canal. Uma via. Uma passada de mão na bunda. Vixe, porque estou rindo? Que loucura. Essa merda de aparelho. Mal comprei, já está mexendo comigo. E esse guri? Me cria contas, senhas, atalhos, símbolos novos e mais coloridos. Aqui, só para postar fotos. Aqui, previsão do tempo. E esse verdinho com um telefone? WhatsApp, não conhece? E esse azulzinho com a pombinha branca? Twitter. Não quero. Baixa o Tudo Gostoso, tá? Não, não sou pervertida. É de receita. Baixa o das joias. Jogo, jogo. Baixa o da Globo, rádio, jornal e tv. Vê se tem o Sérgio aí. Transforma ele num ícone. Bota ele na minha tela, no meu dedo, enche meus olhos, me ofusca com ele. Me faz abrir o Sérgio, cada vez que me der vontade.
Alison Guedes Altmayer
29/06/2017

A personagem irá contemplar um quadro (em qualquer espaço: museu, computador, loja de réplicas, etc) e expressará sua emoção, ou não, diante da pintura. IMPORTANTE utilizar fluxo de consciência ou monólogo interior. Sugiro algumas obras, mas podem escolher outra: A persistência da memória de Salvador Dalí, O grito de Eduard Munch, Hospital Henry Ford de Frida Kahlo. 


Técnica: monólogo interior de Édouard Dujardin “Discurso sem interlocutor e não pronunciado através do qual um personagem exprime seus pensamentos mais íntimos, mais próximos do inconsciente, anteriores a qualquer organização lógica, isto é, no seu estado original, por meio de frases diretas reduzidas à sintaxe mínima, de maneira a dar a impressão de não terem sido elaboradas.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Capítulo XIV - Nothing else matters


And nothing else matters


So close, no matter how far
Couldn't be much more from the heart
Forever trusting who we are
And nothing else matters
(Nothing Else Matters, Metallica)

Presunçosa e antipática, Sérgio pensou enquanto se vestia.
Ana chamou-o na casa dela, sob o pretexto de um café. Que mulher convida um homem, um ex-namorado, um amor de adolescência para um café sem ter segundas intenções? A presunçosa da Ana, que se achava a tal com o nariz empinado e o andar firme. Sérgio pensou enquanto fechava a presilha da pochete e enfiava os chinelos.
A antipática, quando na cozinha, despejara o café na xícara respingando na toalha e no pires, como se estivesse com pressa. Mais ainda quando cruzara as mãos sobre a mesa e dissera por cima dos aros coloridos:
- Vou te contar uma coisa, Sérgio, porque acho que é o certo e não porque espero alguma atitude tua.
Ana encarava-o séria, tão séria que até parecia triste. Ele ainda ameaçara uma carícia no braço, tentara agarrar sua mão, tocar as unhas feitas, mas ela puxara os braços mais para perto do peito, evitando-o.
“Grossa, também”, pensou o ex-namorado.
- Te peço que me deixes contar tudo primeiro, sem me interromper. Depois, sim. Se ainda quiseres falar comigo. – Determinou, sentada ali na cozinha, rija. Ela abriu e fechou a boca como se estivesse criando coragem, antes de voltar no tempo e contar tudo. Com uma calma inesperada, desfiou sua história, provavelmente ensaiada muitas vezes, escolhendo as palavras. Falou de quando namoravam, de quando ela foi embora, da gravidez, da entrega do filho deles para adoção, de aborto não ser opção na família religiosa dela. Ana não se deteve nem quando os olhos dele se esbugalharam e o queixo foi caindo. Sérgio chegou a se inclinar sobre a mesa, buscando absorver melhor as palavras lançadas pela namorada de adolescência. Vasculhou no rosto, no corpo e no que ela dizia – onde estava a menina daquela época? Que caminhos tão complicados trilhara o amor da sua vida? Por fim, recostou-se na cadeira e abriu os braços, inquirindo:
- Mas como assim, um filho? Como assim, um filho, Ana?
Ela permaneceu quieta.
Ele avermelhou e sacudiu a mesa com a mão espalmada, continuando:
- Nosso? Nosso e tu deixastes eles tomarem o bebê de nós?
Ana encolheu-se na cadeira da cozinha. Embargou a voz quando confessou que andava procurando o filho deles já há algum tempo, pelo menos para ter certeza que ele estava bem. Mas tudo isso sem sucesso até aquele momento.
- Eu tinha 15 anos, Sérgio. Tento me perdoar até hoje jogando a culpa na idade, porque só a inocência mesmo justifica a pouca resistência que ofereci. – disse, baixando os olhos, pela primeira vez desde que se reencontraram.
Ficaram em silêncio pelo que pareceu ser uma eternidade. Cada um absorto no seu café. Ela, esperando alguma atitude madura da parte dele, remexendo a colher na xícara e afastando os farelos de bolo com os dedos gélidos. Ele, surpreso descobriu-se tentando entender a Ana, ao invés de culpá-la ainda mais. Sorvia o café morno e mastigava ruidosamente uma fatia generosa de bolo de laranja. Já bastava o que, nas últimas duas décadas, ela deveria ter se culpado pelo amor inocente deles. Era penitência suficiente. Não era presunção, nem antipatia, nem grosseria: era a culpa, o medo da reação dele, a tristeza profunda de uma mulher a quem lhe foi interrompido ser mãe.
- Quem sabe se eu ajudar podemos encontrar o guri, Ana? Não sei por onde, nem como começar, mas quero fazer parte de agora em diante.
E assim foi que eles encontraram algo em comum, algo que se não os aproximava romanticamente, ao menos os unia por um fruto do amor inconsequente deles de tantos anos atrás.
Ana já podia olhar para ele sem temor qualquer, nem de um abraço, tampouco de reprimenda, mas sim de conluio e cumplicidade.
Sérgio, por sua vez, sentia algo entre a empolgação para bolar um plano de encontrar esse guri perdido e a mais pura felicidade por descobrir que o problema de não ter tido um filho com a mulher, não era por seu sêmen ser fraco. A mulher era quem não conseguia vingar um filho dele.
Um filho. Um filho nascido. Um filho vingado!

Nothing else matters.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Você é linda, mais que demais.

VOCÊ É LINDA, MAIS QUE DEMAIS. 

O temporal atingiu Sérgio no caminho para a sorveteria, de tal forma que chegou a encharcar os cabelos, fazendo-os grudar no pescoço e ao redor do rosto. As roupas, então, em apenas uma quadra pesavam o dobro. Os chinelos resvalavam pelos pedais, o que não o impediu de passar pelas poças, respingando o barro nos pelos das pernas e nos pés. Fugia dos raios, com medo que um caísse numa árvore da avenida.
Debaixo do alpendre da igreja, Seu Manuel, vendedor da carrocinha de doces, até pensou que se tratava de um guri se divertindo num dia de chuva: livre, moleque, destemido. E era exatamente assim que Sérgio se sentia, fora o detalhe de não querer morrer daquela maneira: com um raio caindo na cabeça, espalhando-se pelo corpo, pelos pés, pela bike até fazer terra. Ou será que os raios vinham de baixo para cima? Não lembrava mais. Agora tanto faz, estamos indo de volta para casa – não! Não dá para cantar essa música, porque não era para casa que ele estava indo, era para a sorveteria.
Lá chegando, largou a bicicleta de qualquer jeito no chão. Entrou. Sacudiu-se para se secar e foi chovendo água para todos os lados. Via-se jovem, cheio de vida depois da pedalada rápida. Ria, enquanto tentava, com as mãos, secar os braços. Nem passou pela cabeça dele que a sorveteria poderia ter cliente numa noite dessas.
Foi quando a viu.
Linda.
Mais linda do que aos 15 anos. A primeira imagem que encontrou para defini-la foi: em forma. As pernas cruzadas ainda davam os ares de bailarina. E a regata justa não mostrava barriga nenhuma. Os braços torneados e morenos. E o pescoço! O pescoço não terminava numa papada, nem num queixo duplo. O rosto. Ah o rosto! Que rosto! Os cachos continuavam lá, mais curtos um pouco, caindo pelas costas. Depois definiu-a jovem e elegante e por último, quando chegou bem pertinho, cheirosa.
Pelo jeito Ana também estava encantada com ele porque sorvia-o com o olhar.... da cabeça aos pés e de volta à cabeça. Surpresa, talvez tentando conter a atração que sentia por ele, nem notou que ele ameaçou abraçá-la, tampouco viu a mão estendida. Ficou ali, em pé, em frente a ele. Fitando-o com o queixo erguido, os cílios piscando. Sérgio sentiu aquele desejo imenso de antes, voltar. Queria agarrá-la ali mesmo, que se danasse o Gilnei. Com certeza ela queria se deixar agarrar, conhecia a Ana. Todo o retraimento era por pura timidez, por vergonha do atendente da sorveteria. E isso ficou provado no fim do bate-papo, quando ela esperou o rapaz ir ao banheiro para convidar Sérgio para um café na casa dela. Poderia ter convidado para um café em qualquer outro lugar, mas não, convidou para ir na casa dela. Ele se sentiu empolgado, louco que chegasse o outro dia.
Voltou para casa quando o temporal passou e cada vez que lembrava do convite, se soltava do guidão e esfregava as mãos uma na outra.

Alison Guedes Altmayer

20/07/2017 – Escritores de Quinta 

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Capítulo X - Dizem que a mulher é o sexo frágil (Ana e Sérgio)


Dizem que a mulher é o sexo frágil / mas que mentira absurda...


Assim que Ana saiu do banheiro, viu com assombro, pelo canto do olho, a pochete emoldurada pela bermuda e pela camiseta do supermercado local – tudo no cabideiro do seu falecido pai. Capta também, a imagem grotesca de Sérgio esparramado na cama de casal dos pais dela. Não esperava vê-lo ali, assim: recostado na cabeceira de mogno, ele estava nu, com as pernas cruzadas. O que Ana não capta é o pensamento dele, o que o faz ficar excitado, esse delírio em que ele se vê apoiado na cabeceira da cama, no momento em que ela sai do banheiro, senta na banqueta da penteadeira, solta os cabelos antes arrumados num penteado perfeito. Conforme ela levanta os braços para soltar os grampos, ele desliza o olhar pelas costas seminuas, a bunda ainda levemente arredondada e admira as panturrilhas bem delineadas pelos pés em meia-ponta. Pelo espelho, ela encara Sérgio. Ana tem o rosto oval relaxado, olhos semicerrados e a boca levemente entreaberta. Surge a linguinha rosa, molhando os lábios. Enquanto tira os brincos de pérolas, a alça cai pelo ombro. Ela espera que ele se aproxime e beije o pescoço, os ombros – girar a banqueta e chupar seu sexo – fazê-la derrubar todas as armas femininas da penteadeira.

Quando notou que ela estava à porta, despertou, mas manteve o clima, porque começou a dar umas batidinhas no lençol floreado, enquanto sorria satisfeito:

- Vem, vem! – disse rapidinho, como se estivesse com pressa.

Ana estava estupefata – jamais passou pela cabeça dela que ele agiria assim. Sérgio entendeu errado o convite para um café e, aos olhos dela, parecia ridículo espalhado ali, chamando-a para se deitar com ele. Uma coisa é desejar reencontrar um amor das antigas e romantizar o momento faz parte do imaginário criativo dela, outra coisa é vê-lo deitado na cama, tão à vontade quanto um polvo no fundo do mar.

Será que ele não tinha noção? O que passava pela cabeça dele? Que ela ainda era apaixonada por ele? Que nesses vinte e tantos anos ela tinha esperado por ele, por esse momento? Definitivamente, pelo jeitão espaçoso e pelos olhos vibrantes, ágeis, alegres que sorviam o corpo de Ana, Sérgio só pensava na própria satisfação. Num jogo de corpo, ele se deitou de lado, segurando a cabeça com a mão e acariciando o próprio pau, insistiu:

- Vem logo!

Um homem digno de pena, visto assim da soleira, por uma mulher nem um pouco interessada em reviver amores da adolescência.

- Puta que pariu, Sérgio, entendestes tudo errado. – disse exasperada. – Que merda! Te espero na sala. Vestido.


 

+++

Quando na noite do temporal Sérgio entrou na sorveteria, Ana teve um choque. Embora ela soubesse que cedo ou tarde eles topariam um com o outro, ainda mais num balneário tão pequeno, ela não contava com a decadência dele. A Márcia avisara, entre um café e um doce, que ele estava veraneando no balneário e Ana romantizara um possível encontro: talvez uns grisalhos nas têmporas e mãos com veias salientes, mas ele caminharia firme até ela, numa camiseta polo, bermuda de sarja e uns dockside. Durante o abraço, ela sentiria um Paco Rabanne ou um Dakkar.

Uma poça d’água se formava ano redor dos chinelos de praia. Sérgio trazia os cabelos longos grudados ao redor do pescoço e pingando. Quando balançou a cabeça, Ana se lembrou do cachorro collie que viu saindo banho na pet-shop. A barba por fazer, a camiseta furada no “i” do slogan “Viva o Verão” do supermercado local, as bermudas adaptadas de um jeans. Tudo enfim contribuía para realçar a ação do tempo sobre ele. Não era bem assim que ela imaginava reencontrá-lo.  Só não sabe bem se a decepção que sente fica por conta da aparência esdrúxula ou se pelo jeitão imaturo de sacudir a cabeça e dar uns pulinhos para se livrar da água no corpo e nas roupas surradas.

Evitou tanto o abraço, quanto a mão que teimava em subir e descer pelo braço dela, enquanto ele dizia: quanto tempo, guria, quanto tempo! Algo desagradou Ana, fazendo-a lembrar da sensação de comer um cáqui maduro, só que com casca. Mesmo assim – e não se deixando impressionar pelo sorriso bobo dele a cada frase dela, decidiu que era hora de uma conversa sobre o passado e achou por bem convidá-lo para um café. Por isso ele estava ali, na casa dela, para saber sobre o filho que tiveram.


Para Ana, contar sobre o filho seria como encerrar uma história. Seria a vida se encarregando de fechar o ciclo.  Na cabeça dela, quando esse encontro acontecesse, os dois estariam maduros, chorariam um pouco e cada um seguiria seu caminho. Mas depois do reencontro na sorveteria e agora com a cena no quarto, Ana já duvidava dessa maturidade por parte dele. 

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Capítulo IX - Vento ventania, me leve sem destino... (Ana)


Vento ventania, me leve sem destino....
 

Quando cruza as portas automáticas, passa de Ana à Anna, porque por conta de um sobrenome popular e de uma numeróloga, Ana S. acabou adotando logo de início o pseudônimo de Anna C.  Hoje é dia de ler as resenhas enviadas ao jornal por frilas e textos de aspirantes a escritores. Além de colunista, Anna é também responsável por fazer a última triagem antes de passar ao editor-chefe o que resta. Ela alterna entre a xícara de chá e a caneca de café, separa um marcador de texto, duas ou três canetas, não sem antes ter tido o cuidado de escolher Gabriela com Rebu na manicure. Olha não só para as unhas, como também ao redor: pelas baias cheias de jovens, debruçados sobre os teclados, o celular pendurado entre a orelha e o ombro, os olhos num vai-e-vém frenético entre a tela do computador e o teto. Pelo balançar dos pés nas rodinhas das cadeiras, parecem não ter tido tempo para um xixi.

Começou a trabalhar ali ainda nos tempos em que o diploma de jornalista não era indício de bom profissional. Não havia baias: o redator-chefe sentava num púlpito e os demais jornalistas eram dispostos em ilhas conforme as colunas do jornal. Na frente, os mais-mais da política, economia, finanças e mercados. Depois a plebe e por fim, a turma das palavras-cruzadas e horóscopo. O diagramador, coitado, subia e descia as escadas a cada quinze minutos depois das 16h, quando o jornal começava a ser fechado. Isso tudo naquela época, vale lembrar, quando Anna, sempre em busca de algo mais, acabou cursando jornalismo na universidade federal. Acho que no fundo ela queria dominar novas técnicas, manter-se atualizada e ter o diploma à postos para uma eventualidade.

A eventualidade no caso era Ana querer ser uma jornalista de guerra. Cobrir as atrocidades de Sarajevo, do Iraque, do Afeganistão, da Caxemira, da Nicarágua, da Venezuela. África não chegou a fazer parte de alguma guerra que interessasse a ela. Infiltrar-se no Sendero Luminoso. Infiltrar-se no Al-Qaeda. Infiltrar-se na máfia russa. Quem não tem um sonho romântico assim? Fazer a diferença no cenário mundial e não chegar a notar a solidão do idoso do apartamento ao lado. A bem da verdade, sabemos que Ana nunca conseguiu sair de Porto Alegre por outros motivos. O máximo que conseguiu foi infiltrar-se no hospital e varar manhãs e manhãs tentando descobrir para onde seu menino havia sido levado.  Chegou bem próximo da verdade, ela tem ciência, mas se acovardou e acabou esperando que a vida se encarregasse de trazê-lo até si.  Pois, como dizia o pai: Toca o barco! Não pensem que ela não viaja. Viaja, sim. Nas férias como um marinheiro volta para casa: sempre de olho no mar.

Mas as coisas foram se acomodando no jornal conforme ela escrevia de tudo um pouco: de horóscopo a mercado financeiro. Até o dia em que o editor-chefe deu de olhos numa crônica sua. Aí a coisa ficou séria e ela ganhou uma coluna quinzenal. Da turma do fundão, para os cri-cris da primeira fila. Algum tempo depois, por conta de pitacos bem humorados e com toques de ironia sutil, arrebanhou leitores e por consequência, uma coluna diária nas primeiras páginas. Ela escreve sobre a vida, as gentes, o futebol, os amores infindáveis e finitos, mas é na política e na economia que ela se deleita, sendo capaz até de defender o indefensável. Vê a economia sobre o prisma das flutuações dos preços no supermercado do bairro e na feira de sábado, fala com a dona-de-casa como se fosse a amiga com quem vai ao cinema ou senta no barzinho para um chope.  E de combustível, só pode opinar pelas reclamações dos colegas, porque desde os primórdios das ciclovias, ousou uma bike na capital, com toda a sua falta de destreza. Não é ativista do pedal, mas sempre que pode, espinafra os carros e ônibus mal conservados que passam atirando fumaça negra sobre ela.

E aqui vemos Anna, à mesa de trabalho perto da parede envidraçada com vistas à um rio quase morto, se espreguiçando e coçando o coque com a ponta do lápis. A pilha de envelopes e a caixa de entrada do e-mail já baixaram consideravelmente e o lixinho transborda. Separa os textos que considera interessantes para o editor-chefe e imprime um em especial para a editora. Num envelope pardo do jornal, coloca as folhas impressas e grampeadas, um sachê de chá e colado, um bilhetinho:

“Arthur, acho que este texto merece tua apreciação. Bem orientado pela Editora Ventania, pode se tornar um sucesso. Abraço, Anna.”

Alison G. Altmayer
25/05/2017



A quién le puedo preguntar
Qué vine a hacer en este mundo?
Por qué me muevo sin querer
Por qué no puedo estar inmóvil?
Por qué voy rodando sin ruedas,
Volando sin alas ni plumas,
Y qué me dio por transmigrar
Si viven en Chile mis huesos?
(Pablo Neruda)

Quem poderia me responder? Eu cheguei nesse mundo impondo minha presença a quem não me queria e ela não me aceitou. Cheguei nesse mundo numa casa estranha à que me seria natural, fui aceito como um refugiado. Os olhares sobre mim sempre foram de indagação: quem és? Qual tua história, Gilnei? Nem meu nome é o que minha mãe teria me dado. Só quem sabe meu nome verdadeiro pode me definir. Eu vivo buscando essa mulher e não fico parado: vagueio por este Sul a procura de mim, da minha origem, de minha mãe – meu amor maior, interrompido.

Alison Guedes Altmayer

20/07/2017 – Escritores de Quinta – Exercício baseado em pergunta de Pablo Neruda

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Capítulo VIII - She may be the beauty or the beast (Gilnei)


She may be the beauty or the beast


Dizem que muito do que somos é fruto do que vivemos e também da nossa convivência social, ou seja, o meio nos molda. Mas as coisas que eu não consigo explicar em mim, atribuo à genética – essa desconhecida minha. Torcer pelo Inter, por exemplo, numa família de gremistas fanáticos. Cheguei a ser arrastado junto com meu cobertorzinho para o Olímpico. Não adiantou de nada.  Ou o gosto pela bike ao invés de sonhar com carro. A facilidade para escrever os meus pensamentos, transformá-los em histórias no meio de gente que mal tem o ensino fundamental. E algumas trambicagens, coisa pouca, mas que sem dúvida não herdei nem dos velhos, nem dos amigos. Meu nome também não é aquele eco que às vezes me acorda no meio da noite. Todo mundo me conhece por Gilnei. Mas que nome ela teria me dado? No sonho, ela grita André! e eu correspondo, abrindo os olhos em terror, suando, escutando barulhos no corredor do prédio.

Costumo ficar imaginando como ela é, a minha mãe de verdade.

Antes de dormir.

Durante o trajeto do ônibus.

Na hora do almoço.

Quando eu acordo.

Tudo que sei é que nasci em Porto Alegre, numa primavera pra lá de ventosa e quente e que fui adotado por um casal idoso de Cachoeirinha. Pelo meu reflexo no espelho e por pura dedução, sei que ela é branca, bonita e atraente. E lá no fundo, acho que só vou saber quem eu sou, se eu souber quem ela é.  Fechar o círculo ou encerrar o ciclo, como queiram chamar o encontro das pontas.

Tenho várias hipóteses para ela não me querer, encontrando um prazer mórbido em bolar as histórias, que consomem horas dos meus dias e cansam minha cabeça com voltas e mais voltas. Chego a pensar que estou no labirinto do Minotauro, sem o fio de Ariadne. Por isso, criar a personagem “Sra. MÃE” em homenagem a essa pessoa que me teve, foi como um alívio.  

Por vezes a Sra. MÃE é drogada e foi obrigada pelo serviço social a me colocar para adoção. Daí, num intervalo no escritório, vou acabando com ela na tela do computador, mais ou menos assim:

“Sentada numa rua escura de chão batido e encostada num muro de reboco moído, a Sra. MÃE abraça os joelhos. Sob uma neblina fina de inverno, alguns homens conversam na esquina. Sobem e descem do meio-fio aquecendo os pés metidos em botinas forradas de jornal. Não se incomodam com os vira-latas que vão se juntando ao grupo, buscando o calor da churrasqueira de barril. Ela esfrega a testa nos joelhos e limpa o nariz no moletom. Depois, um pouco antes de se levantar e ir se juntar ao grupo, seca as lágrimas nas mangas puídas. Os homens também não se incomodam com a presença dela, mas não a incluem na conversa. Comem as linguiças assadas, lançam para o alto o cordão com um resto de ponta para ser disputado pelos cães e jogam para ela as partes queimadas, se sobrarem. Tomam a pinga misturada com suco em pó barato direto do gargalho e vão passando a garrafa na roda. O trago ela até pode bebericar, mas que se não se passe, senão leva um safanão no pescoço. Hoje, a Sra. MÃE não vai se drogar, não vai se deixar se usada, nem vai ficar largada atrás do muro, com o moletom preso nos joelhos e a boca cuspindo sangue no capim alto. Só hoje, pelo filho abandonado. Usuária de drogas, desempregada, pobre e com frio, não há um dia em que ela não pense nele e em como ele está.”

No meu delírio de guri rejeitado, essa é a imagem da mãe sofredora e culpada.

Outras vezes eu penso que é a Sra. MÃE_1 e não sabe que eu estou vivo. Tipo novela mexicana. Ela me ganhou, mas disseram que eu morri e me entregaram para adoção (ainda não consegui imaginar como enterraram um caixão sem corpo). Então, nesses momentos, a imagem que tenho dela é assim:
“Sentada atrás de uma mesa de trabalho, numa agência de navegação, MÃE_1 suporta um chefe mal humorado e ganha presentes dos comandantes dos navios. Nos fins de semana, MÃE_1 vai ao cinema, aos barzinhos e sai para dançar. É solteira, descolada e ainda não encontrou um marido. Quando bebe demais, sente um buraco no peito que não consegue explicar.  Ela mergulha nesse buraco e sonda nas profundezas escuras, o que há ali. Toca as paredes frias e úmidas. De repente, o buraco se expande, ela vai despencando e tenta se agarrar no tecido quente, sujando os dedos com sangue negro. Assim que consegue manter seu corpo junto às paredes, como se estivesse escalando uma pedra lisa, o buraco se contrai e aperta o corpo dela, de tal forma que MÃE_1 pensa que vai morrer, enquanto é empurrada cada vez mais fundo. Ela chora, chora, chora. Limpa o rosto sujo de sangue no travesseiro, vomita no balde ao lado da cama e dorme. Jovem, empregada e com um futuro pela frente, MÃE_1  sabe que algo está faltando dentro dela.”

Não pode ser eu, porque eu morri para ela.

É claro que jamais imaginei ela sendo uma pessoa normal, dessas que frequentam a sorveteria ou que trabalham no escritório. Gente normal não abandona filhos. Gente normal não tem problemas nem fica criando histórias mirabolantes para, de alguma maneira, concretizar uma mãe ausente e cruel. Porque histórias interessantes, daquelas que prendem um leitor mais displicente, não podem ser sobre gente sem conflitos, sem grandes dramas. Como essas mulheres que veraneiam no balneário, pedalam para baixo e para cima na avenida, fazendo compras no artesanato da igreja. Curtindo, como todas as outras, as férias dos seus empregos estáveis.

“A Sra. MÃE_2 é uma daquelas pessoas que por mais que o tempo passe, não envelhece, mantendo a beleza. Ela não se curva para o tempo. Trabalha no que gosta. Tem uma casa. Um carro. Não, carro não.  Ela tem uma bike moderninha. Tem cabelos longos e cacheados e traz um segredo nos olhos castanhos. Um dia, ela senta perto de mim e me conta coisas. Quando era adolescente, se apaixonou, engravidou e se viu sem saída com 15 anos. Com os olhos baixos e os cílios molhados, desabafa que os pais eram muito religiosos e que faziam parte da sociedade – essa sendo a desculpa principal para se importarem com o que os outros pensariam. Mandaram a pobre para Porto Alegre para viver com uma parente distante até ter o bebê (eu, no caso). A parente, muito convenientemente, era enfermeira num hospital e sabia os caminhos da adoção. A Sra. MÃE_2, longe da família, dos amigos, da escola, do amor da sua vida de 15 anos e grávida, se deixou levar. Não sem antes dar um jeito de avisar o namorado (meu pai, claro) que estava indo para bem longe. A sua história encaixa direitinho na minha. A essas alturas eu já tinha agarrado as mãos dela. Ela ergue os olhos molhados e vejo meu reflexo neles. Como se fosse uma criança, me acomodo no colo cálido do olhar da Sra. MÃE_2. Gilnei, ela diria baixinho, a enfermeira disse que o melhor seria não chamar meu nenê por nenhum nome para não criar vínculo. Eu tinha 15 anos e acreditei. De madrugada, tiraram ele do meu peito dizendo que era hora. Lembro dele sendo levado, os berros ecoando pelas cortinas do quarto, atravessando o corredor azulejado, e eu num surto gritando: ANDRÉÉÉÉÉÉÉ. ”

+++

A mulher estava parada já há um bom tempo olhando para o painel, parecendo indecisa entre os sabores.

- Eu, se fosse a senhora, escolhia o de flocos. Foi feito hoje.

                                                        Alison G. Altmayer

18/5/2017

segunda-feira, 17 de julho de 2017

VII - Sorvete de caju com tâmaras (Ana)


Sorvete de caju com tâmaras


Ana ficou parada um bom tempo olhando para o painel, indecisa entre tantos sabores.

- Eu, se fosse a senhora, escolhia o de flocos. Foi feito hoje. – disse o jovem, apontando para o sorvete dentro do balde branco.

Não foi bem a voz, mas mais o tom usado que a fez passar a atenção do painel para o rosto do rapaz. Fechou os olhos e pediu:

- Repete, por favor. - Passaram-se uns instantes, talvez de hesitação, até que ele disse:

- Se eu fosse a senhora, levava o de flocos que fizeram hoje.

Se eu fosse tu, não contava nada pros teus pais. Esse era o conselho que o Sérgio mais dava quando eles namoraram. Tudo era escondido, tudo era segredo, tudo era proibido. 

E mais uma vez ela estava paralisada em frente a um rapaz, que deveria ter uns 22 anos, buscando nos traços, na forma, no olhar, na voz – algo dela, algo dele. Algo em que se agarrar e poder dizer: és meu, desculpe, mas és meu. Não houve um dia nestes últimos 22 anos que ela não pensasse nele. No que havia sido feito dele. Quem seria ele hoje? E ano que vem, seria alguém com 23 anos.

- Então, senhora, o que vai ser? – insistiu o atendente, mesmo com a sorveteria vazia.

- Caju com tâmaras.

- Casquinha ou cascão?

Silêncio. Se a gente comprar um cascão, dá para dividir. Porque como o Sérgio andava sempre sem grana eles tinham que compartilhar tudo.

- Quantos anos tens?

- Eu? 22. – respondeu com um olhar desafiador e um sorriso indeciso.

Frio. De repente, faz frio dentro dela. Se aqui fosse Porto Alegre, onde ela ganhou o filho, esse rapaz poderia ser ele.

- Vai querer cobertura?

- Vou, sim.

E ele deu às costas. Jogou o pano sobre o ombro esquerdo e caminhou até o recipiente da cobertura, balançando os ombros, com o peito cheio. Parecia tão orgulhoso, tão contente. Ana sentiu as pernas amolecerem e os pés não conseguiam sair do lugar.

Enquanto entregava o sorvete para Ana, Gilnei baixou a cabeça, deixando os cabelos castanhos caírem, mas mantendo os olhos grudados nela, sempre sorrindo, fazendo um floreio com a mão, ainda segurando o pano no ombro.

- É melhor a senhora não sair agora, olha o temporal chegando.

E assim ela ficou ali, não precisava nem pedir. Quando faltou luz e ela gritou de susto, pelos raios, pelos trovões, pela escuridão, pela semelhança, ele puxou a cadeira de palha e sentou na frente dela.


- Eu sou o Gilnei.

domingo, 16 de julho de 2017

Capítulo VI - Here comes the rain again (Sérgio)



Here comes the rain again...



A Zum-Zum era uma sorveteria tradicional do balneário, que vinha se mantendo ao longo dos anos, das crises, dos prefeitos e da vigilância sanitária. Com muitas opções de sabores, casquinha ou cascão e a famosa cobertura de chocolate crocante, era a grande pedida depois da novela, quando se formava uma fila de respeito. Então, o ideal era ir durante a novela e evitar assim os indecisos em frente ao balcão frigorífico.

Há uns 3 ou 4 verões eles contrataram o Gilnei, um guri que trabalha ali só nas férias escolares. Entre um “hoje morango com nata”, “capricha na cobertura” e “aqui seu troco”, acabamos descobrindo algumas coisas cruciais em comum. Uma delas a paixão pelo nosso Internacional. Admiro a disposição dele, que durante o dia trabalha de office-boy numa agência de navegação e de lá, vem direto para o atendimento na sorveteria, sem nem pegar ônibus seletivo. Por essa e por outras, atribuo ao cansaço, alguns trocos errados.

Numa noite, ficamos conversando mais tempo, presos pela chuva torrencial que caiu sem avisar. Foi justamente quando Gilnei me contou que crescera em Cachoeirinha e que nos verões, os pais gostavam de acampar aqui. Por esses meios inexplicáveis, encontrou emprego no escritório e seguiu os estudos à noite, não voltando a morar com os velhos. Mora numa pensão, tem uma barra-forte e é apaixonado por uma atendente da padaria da esquina.

- Devo tudo aos meus pais, sabe? Mas o que eles tinham que fazer por mim, já fizeram. Agora é comigo.

E assim foi que me contou a história da trajetória dos 22 anos dele, até a chuva amainar e eu voltar para casa. Lembrei disso, porque faz uma noite abafada, os azulejos suam e o piso está escorregadio – prenúncio de temporal. Daí a vontade de dar uma volta. O problema é que não gosto de levar minha mulher para passear na avenida. Troço chato. Ela vai parando em todas as banquinhas de artesanato espalhadas pelo caminho e o pior: insinuou querer dançar no bailinho na frente da igreja. Só que não sou bobo e descobri uma maneira de sair sozinho para dar uma volta: ir tomar sorvete na Zum-Zum, porque pelas próprias palavras dela “na minha idade, doce está ficando proibitivo”. Para mim, esse proibitivo há horas já chegara, mas não ouso dizê-lo. Pelo menos não tão abertamente. Daí, durante a novela das oito, no mesmo tom usado para “vistes minha Placar?”, perguntei:

- Vamos até a Zum-Zum?

A mulher se remexeu, afundando e esgaçando um pouco mais o sofá. Cruzou os tornozelos, fincando o calcanhar na havaiana preta e descansou as mãos sobre o ventre saliente, bem marcado pelo tecido gelado da roupa.

- Estou vendo a novela, Sérgio. E sabes que na minha idade está ficando proibitivo um sorvete daqueles.

Enquanto olho para ela, tenho a impressão de que faria parte da cena, ela recolher um fio de baba com o dedo. O tempo, ah o tempo, como ele pode ser cruel. Quando estávamos com uns 2 anos de namoro, minha mulher veio com a novidade que estava grávida. Nem havia me passado pela cabeça a ideia de um dia casar com ela, não fosse a gravidez. Ainda lembro de suar frio sob o terno alugado, arrastar os pés em direção ao altar, olhar em volta e passando um lenço na testa, pensava: “Onde fica a saída mais próxima?”. Mas enfim, casamos. E o dia seguinte foi igual ao dia anterior, nada mudara em mim. E a semana seguinte seria igual a anterior, não fosse o sangramento e a gravidez interrompida. E as outras gravidezes iguais as anteriores.

- Bom, vou lá e já volto então.

Ainda gritei da garagem:

- Vou de magrela porque o tempo está se armando!


Alison Guedes Altmayer
11/05/2017

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Capítulo V - Oh, oh, oh Sweet child o'mine (Ana)

Oh, oh, oh Sweet child o' mine




Minha intenção ao retornar ao balneário não era resgatar nada. Nem a relação deteriorada há décadas com a família, nem com as amigas da adolescência, nem passear pela avenida central, muito menos ficar sentada no jardim cuidando a rua. A razão da vinda era tão somente enterrar minha mãe, fechar a casa e voltar logo para Porto Alegre.  Consegui evitar o aviso de falecimento no jornalzinho local, mas as tias não me deram chance e o da missa de 7° dia ia sair. Com isso fiquei mais um tempinho. Como não podia deixar de ser, o enterro foi uma sucessão de lágrimas, “sinto muito” e beijos melequentos, de gente que eu não via há séculos. Das oito cadeiras em volta do caixão, só três estavam ocupadas pela família composta de tias e eu.

Já em casa, vi na porta da geladeira, um imã sugestivo. A forma de um merenguinho clamou meus olhos secos. Uma delícia em bege e caramelo e um simples número de telefone.

Com isso, acabei cruzando com a Márcia quando fui buscar a bandeja de merengues sortidos, recheados com baba-de-moça e canela, limão ou creme de baunilha. Abraçou-me como só ela sabe fazer, apertou meus braços com carinho, deitou a cabeça de lado e chorou de saudades. Conversamos entretidas enquanto os clientes entravam e saíam até que o guri dela assumiu o atendimento, bufando e resmungando por ter que largar o videogame. Evitou assuntos que só me deixariam pior, mas ou por cumplicidade de amizade da adolescência, ou por romantismo puro, deixou resvalar que o Sérgio estava veraneando. No mesmo lugar. Minha mão cobriu a mão salpicada de açúcar de confeiteiro, como dizendo: é o bastante. E paramos por aí.

No final de tarde, mesmo com o calor úmido, fiz um café forte e sentei no jardim. Ao lado da cadeira, coloquei a mesinha e fechava os olhos cada vez que pegava um doce. Uma indulgência merecida. Mordia o merenguinho, sentia o recheio deslizar pela boca e era tomada de surpresa pelo sabor. Torcia para que fosse de baba-de-moça com canela. Arrepiava-me se fosse de limão. Pensava em madelaines se fosse de creme de baunilha. Fui comendo um por um, enquanto cuidava o movimento da rua de saibro por entre os arbustos do muro. Mas as surpresas ficaram só por conta dos doces, porque a rua estava calma.

Eu não podia esperar outra coisa, que bobagem. Porque se ele passasse em frente, se me visse, se parasse, se viesse na minha direção, o que eu iria fazer? O que eu iria dizer? Se ele me perguntasse o que acontecera, por onde começar a contar?

Contar, contar, contar histórias, contar números, contar dinheiro. Dinheiro. Gente! Dinheiro! Eu e a Márcia ficamos tão entretidas em se rever, em conversar que me esqueci de pagar os doces. Teria que voltar lá e pagar, reencontrá-la e talvez até saber mais. Melhor não. Queria evitar contato, resgate de amizades, possíveis encontros.

Na manhã seguinte, escrevi um bilhete curto e peguei a bike. Uma passadinha rápida no caixa eletrônico para não ficar sem nada na carteira. Juntei o bilhete ao dinheiro, tudo bem dobradinho para ser colocado por baixo da pantográfica da doceria. Não sei que bobagem fiz na bike, pois quando cheguei lá, meu bolso estava vazio, nem sombra de bilhete, de dinheiro, de cartão magnético. Voltei pelo mesmo caminho, cuidando o chão, claro. Mas a rua movimentada pela feira confirmou o que eu suspeitava: já tinham pego meu bilhete dobradinho. A Márcia teria que esperar mais uns dias para receber, pois o dinheiro que restou, eu iria usar ali na feira mesmo.

E assim, incomodada pela perda do dinheiro e do cartão e pela culpa por ter comido uma bandeja inteira de doces, saí para caminhar pela avenida depois da novela das 8.

Alison Guedes Altmayer
9/4/2017



Semana de 20 a 26 de março de 2023

  Esta semana foi cheia de exames: cardiológicos, de sangue, teste de esteira. Encaixei a academia e os treinos e deu tudo certo no final.  ...