[Exercício de Escrita Criativa – letra de música servindo de base para
um conto. Fonte: https://www.letras.mus.br/simone-simaria-as-coleguinhas/regime-fechado/]
“É bandido, esse meu coração
Eterno prisioneiro da paixão”
Eterno prisioneiro da paixão”
Timóteo
conheceu Jurema num trailer de lanche, aquele na Buarque de Macedo quase com XV
de Novembro. Ele, buscando dois xis-coração, ela um galinhão completo. Entre
pães, molhos e complementos, trocaram olhares e a coisa acabou num beijo molhado
embaixo da parada de ônibus, antes de ir cada um para sua casa. Jurema dividiu
seu lanche com Juvenal. Timóteo, com Lucimara. E a cada escorrida de molho pelo
canto da boca, lembravam do sabor da língua do outro. Na semana seguinte, como
não poderia deixar de ser, encontraram-se no trailer e trocaram números de
WhatsApp – daí para um turbilhão de mensagens calientes, foi questão de pouco
tempo. Enquanto o marido dela assistia aflito ao Inter se enterrar na segunda
divisão, e enquanto a mulher dele fazia a depilação semanal, os dois se esfregavam
e tudo mais dentro do corsa rebaixado. E a coisa foi encorpando num crescendo
que Timóteo começou a sentir a pressão. E também pavor. Na véspera do dia dos
namorados, fincou o pé e avisou:
- Não largo da minha mulher!
Jurema, pensou e pensou, o tanto que
lhe era possível pensar e acabou desabafando, por áudio do WhatsApp:
- Alô, eu tô ligando só pra
dizer que roubar um coração é caso sério! – Escuta-se ao fundo a
barulheira de secadores de cabelo e a algazarra da mulherada pelo novo tom de
Risqué.
- Te acalma, vamos conversar melhor, de noite, lá no
trailer. – Foi o áudio de Timóteo, meio aflito já.
- Vou te adiantando: eu deixo esse cara, cê larga essa mulher. E a gente
vai viver a vida como Deus quiser. Sem dar satisfação da nossa relação, nem balcão
do lanche do alemão!
No trailer, seu Osvaldo limpava as mãos no pano de
prato enrolado no pescoço e dizia: se acalmem os dois! Mas a discussão entre os
amantes seguiu acalorada. A mulher despenteava os lisos de chapinha e apontava
pro amante com suas garras rosa pitanga. Ele só sabia abaixar a cabeça e dizer:
não posso mais, não posso mais.
No meio dessa baderna, toca o celular dele:
- Alô, eu tô ligando só pra te dizer, que eu tô dando queixa de você. Tô
na delegacia e o polícia disse que o caso não tem solução: é adultério ou
traição.
Nem Jurema, nem Timóteo contavam com que a mulher
dele fosse escutar os áudios e zunir para a delegacia. Escutava-se desde lá, da
Avenida Pelotas até a Buarque, Lucimara batendo os calcanhares no chão. No
caminho, deu de mão num pé de cama jogado na lixeira e, para enfurecê-la um
pouco mais, resvalou num cocô volumoso, e ainda quente, de cachorro. E assim,
armada e com os calçados sujos, chegou no trailer de lanches do alemão.
Com o pé de cama, ela ia batendo no marido, enquanto
ele protegia a cabeça com as mãos. A turma do deixa-disso puxava a coitada pela
cintura, mas a fera descabelada estava se sentindo a própria fortaleza e toda
vez que se soltava, partia para cima de Timóteo. Numa dessas, enganou os bobos
e arrancou um tufo de cabelos de Jurema. Segue-se mais uma tentativa de apartar
a briga e a coisa foi ficando feia mesmo. Timóteo caído no chão, recebeu mais
uns chutes, sabe-se lá se da mulher. Jurema, a amante, com o escalpo ralo em
cima da orelha e um rastilho de sangue nas bochechas. Nesse momento chegam os
homens. Vão todos parar na delegacia: marido, amante, mulher, dono do trailer,
turma do deixa-disso. O sobrado da Civil se viu abarrotado, cheirando a sangue,
ranço de lanche e algo mais. Depois de muito ouvir e pouco escutar, o delegado
dá um tapão na mesa e vocifera:
- Enquanto não se acalmarem, vão ficar detidos aqui.
- Isso seu Delegado, concorda Jurema, diga que nossa sentença vai ser viver na mesma cela,
porque os dois estamos sendo acusados de adultério.
O delegado, incrédulo, pensa que a essa hora poderia
estar em casa, pernas na mesinha, umas Brahma na geladeira, outra na mão, e o
Inter subindo no campeonato. Pensa que inclusive, se tivesse passado no
concurso, poderia estar apitando o jogo. Apitando o campeonato brasileiro e
apanhando dos corintianos. Na Bombonera, sendo vaiado pelos Hermanos. Na
Europa, apitando um Manchester United x Barcelona. Mas não, está aqui, numa
delegacia na Avenida Pelotas, com uma doida, um prevaricador e uma corna.
- Seu Delegado, seu Delegado – suplica Jurema –
queremos ser condenados a viver compartilhando
prazer, na cela da nossa paixão.
- Cala a boca, senta aí! – são as ordens do delegado –
Quer chamar seu advogado?
- Não
quero advogado! – responde. Vira-se para o amante, o pobre Timóteo e
declara:
- Quero
regime fechado com você, amor.
O policial encostado na porta revira os olhos. O
escrivão mal consegue disfarçar o riso. Só Timóteo que está cabisbaixo e com as
mãos entrelaçadas sobre os joelhos. A amante ainda tem mais a dizer:
- Nós somos bagunçados e reféns desse pecado. Não
tenho culpa, seu Delegado, pois é
bandido, esse meu coração. Um eterno prisioneiro da paixão.
O silêncio sepulcral na sala lotada somente é
quebrado quando ela sentencia:
- Por isso, vou mandar a mulher dele pro caixão! –
grita, apontando para Lucimara, do outro lado da sala.
A ação durou segundos (ainda bem, porque se durasse
mais talvez virasse tragédia). O alemão do trailer, do banco do corredor, viu Lucimara,
a mulher de fato, se agachar, o policial jogar a mão no coldre, o delegado se
levantar, mas a moça foi mais rápida. Tirou o calçado ainda com a merda grudada
e acertou a amante do marido em cheio.
E nisso levanta todo mundo e o alvoroço recomeça.
Alison Guedes Altmayer – 13/9/17









