Vento ventania, me leve sem destino....
Quando
cruza as portas automáticas, passa de Ana à Anna, porque por conta de um
sobrenome popular e de uma numeróloga, Ana S. acabou adotando logo de início o
pseudônimo de Anna C. Hoje é dia de ler
as resenhas enviadas ao jornal por frilas e textos de aspirantes a escritores. Além
de colunista, Anna é também responsável por fazer a última triagem antes de passar
ao editor-chefe o que resta. Ela alterna entre a xícara de chá e a caneca de
café, separa um marcador de texto, duas ou três canetas, não sem antes ter tido
o cuidado de escolher Gabriela com Rebu na manicure. Olha não só para as unhas,
como também ao redor: pelas baias cheias de jovens, debruçados sobre os
teclados, o celular pendurado entre a orelha e o ombro, os olhos num vai-e-vém
frenético entre a tela do computador e o teto. Pelo balançar dos pés nas
rodinhas das cadeiras, parecem não ter tido tempo para um xixi.
Começou
a trabalhar ali ainda nos tempos em que o diploma de jornalista não era indício
de bom profissional. Não havia baias: o redator-chefe sentava num púlpito e os
demais jornalistas eram dispostos em ilhas conforme as colunas do jornal. Na
frente, os mais-mais da política, economia, finanças e mercados. Depois a plebe
e por fim, a turma das palavras-cruzadas e horóscopo. O diagramador, coitado,
subia e descia as escadas a cada quinze minutos depois das 16h, quando o jornal
começava a ser fechado. Isso tudo naquela época, vale lembrar, quando Anna, sempre
em busca de algo mais, acabou cursando jornalismo na universidade federal. Acho
que no fundo ela queria dominar novas técnicas, manter-se atualizada e ter o
diploma à postos para uma eventualidade.
A
eventualidade no caso era Ana querer ser uma jornalista de guerra. Cobrir as
atrocidades de Sarajevo, do Iraque, do Afeganistão, da Caxemira, da Nicarágua,
da Venezuela. África não chegou a fazer parte de alguma guerra que interessasse
a ela. Infiltrar-se no Sendero Luminoso. Infiltrar-se no Al-Qaeda. Infiltrar-se
na máfia russa. Quem não tem um sonho romântico assim? Fazer a diferença no
cenário mundial e não chegar a notar a solidão do idoso do apartamento ao lado.
A bem da verdade, sabemos que Ana nunca conseguiu sair de Porto Alegre por
outros motivos. O máximo que conseguiu foi infiltrar-se no hospital e varar
manhãs e manhãs tentando descobrir para onde seu menino havia sido levado. Chegou bem próximo da verdade, ela tem
ciência, mas se acovardou e acabou esperando que a vida se encarregasse de
trazê-lo até si. Pois, como dizia o pai:
Toca o barco! Não pensem que ela não viaja. Viaja, sim. Nas férias como um marinheiro volta para casa: sempre de olho no mar.
Mas
as coisas foram se acomodando no jornal conforme ela escrevia de tudo um pouco:
de horóscopo a mercado financeiro. Até o dia em que o editor-chefe deu de olhos
numa crônica sua. Aí a coisa ficou séria e ela ganhou uma coluna quinzenal. Da
turma do fundão, para os cri-cris da primeira fila. Algum tempo depois, por
conta de pitacos bem humorados e com toques de ironia sutil, arrebanhou
leitores e por consequência, uma coluna diária nas primeiras páginas. Ela
escreve sobre a vida, as gentes, o futebol, os amores infindáveis e finitos,
mas é na política e na economia que ela se deleita, sendo capaz até de defender
o indefensável. Vê a economia sobre o prisma das flutuações dos preços no
supermercado do bairro e na feira de sábado, fala com a dona-de-casa como se
fosse a amiga com quem vai ao cinema ou senta no barzinho para um chope. E de combustível, só pode opinar pelas
reclamações dos colegas, porque desde os primórdios das ciclovias, ousou uma
bike na capital, com toda a sua falta de destreza. Não é ativista do pedal, mas
sempre que pode, espinafra os carros e ônibus mal conservados que passam
atirando fumaça negra sobre ela.
E
aqui vemos Anna, à mesa de trabalho perto da parede envidraçada com vistas à um
rio quase morto, se espreguiçando e coçando o coque com a ponta do lápis. A
pilha de envelopes e a caixa de entrada do e-mail já baixaram consideravelmente
e o lixinho transborda. Separa os textos que considera interessantes para o
editor-chefe e imprime um em especial para a editora. Num envelope pardo do
jornal, coloca as folhas impressas e grampeadas, um sachê de chá e colado, um
bilhetinho:
“Arthur,
acho que este texto merece tua apreciação. Bem orientado pela Editora Ventania, pode se
tornar um sucesso. Abraço, Anna.”
Alison G. Altmayer
25/05/2017
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