Dizem que a mulher é o sexo frágil / mas que mentira absurda...
Assim que
Ana saiu do banheiro, viu com assombro, pelo canto do olho, a pochete
emoldurada pela bermuda e pela camiseta do supermercado local – tudo no
cabideiro do seu falecido pai. Capta também, a imagem grotesca de Sérgio esparramado
na cama de casal dos pais dela. Não esperava vê-lo ali, assim: recostado na
cabeceira de mogno, ele estava nu, com as pernas cruzadas. O que Ana não capta é o pensamento dele, o que o faz
ficar excitado, esse delírio em que ele se vê apoiado na cabeceira da cama, no momento em que ela sai do
banheiro, senta na banqueta da penteadeira, solta os cabelos antes arrumados
num penteado perfeito. Conforme ela levanta os braços para soltar os grampos,
ele desliza o olhar pelas costas seminuas, a bunda ainda levemente arredondada
e admira as panturrilhas bem delineadas pelos pés em meia-ponta. Pelo espelho,
ela encara Sérgio. Ana tem o rosto oval relaxado, olhos semicerrados e a boca
levemente entreaberta. Surge a linguinha rosa, molhando os lábios. Enquanto
tira os brincos de pérolas, a alça cai pelo ombro. Ela
espera que ele se aproxime e beije o pescoço, os ombros – girar a banqueta e
chupar seu sexo – fazê-la derrubar todas as armas femininas da penteadeira.
Quando notou
que ela estava à porta, despertou, mas manteve o clima, porque começou a dar
umas batidinhas no lençol floreado, enquanto sorria satisfeito:
- Vem, vem! –
disse rapidinho, como se estivesse com pressa.
Ana estava
estupefata – jamais passou pela cabeça dela que ele agiria assim. Sérgio
entendeu errado o convite para um café e, aos olhos dela, parecia ridículo
espalhado ali, chamando-a para se deitar com ele. Uma coisa é desejar
reencontrar um amor das antigas e romantizar o momento faz parte do imaginário
criativo dela, outra coisa é vê-lo deitado na cama, tão à vontade quanto um
polvo no fundo do mar.
Será que ele
não tinha noção? O que passava pela cabeça dele? Que ela ainda era apaixonada
por ele? Que nesses vinte e tantos anos ela tinha esperado por ele, por esse
momento? Definitivamente, pelo jeitão espaçoso e pelos olhos vibrantes, ágeis,
alegres que sorviam o corpo de Ana, Sérgio só pensava na própria satisfação.
Num jogo de corpo, ele se deitou de lado, segurando a cabeça com a mão e acariciando
o próprio pau, insistiu:
- Vem logo!
Um homem
digno de pena, visto assim da soleira, por uma mulher nem um pouco interessada
em reviver amores da adolescência.
- Puta que
pariu, Sérgio, entendestes tudo errado. – disse exasperada. – Que merda! Te
espero na sala. Vestido.
Quando na
noite do temporal Sérgio entrou na sorveteria, Ana teve um choque. Embora ela
soubesse que cedo ou tarde eles topariam um com o outro, ainda mais num
balneário tão pequeno, ela não contava com a decadência dele. A Márcia avisara,
entre um café e um doce, que ele estava veraneando no balneário e Ana romantizara
um possível encontro: talvez uns grisalhos nas têmporas e mãos com veias
salientes, mas ele caminharia firme até ela, numa camiseta polo, bermuda de
sarja e uns dockside. Durante o abraço, ela sentiria um Paco Rabanne ou um
Dakkar.
Uma poça
d’água se formava ano redor dos chinelos de praia. Sérgio trazia os cabelos
longos grudados ao redor do pescoço e pingando. Quando balançou a cabeça, Ana
se lembrou do cachorro collie que viu saindo banho na pet-shop. A barba por
fazer, a camiseta furada no “i” do slogan “Viva o Verão” do supermercado local,
as bermudas adaptadas de um jeans. Tudo enfim contribuía para realçar a ação do
tempo sobre ele. Não era bem assim que ela imaginava reencontrá-lo. Só não sabe bem se a decepção que sente fica
por conta da aparência esdrúxula ou se pelo jeitão imaturo de sacudir a cabeça
e dar uns pulinhos para se livrar da água no corpo e nas roupas surradas.
Evitou tanto
o abraço, quanto a mão que teimava em subir e descer pelo braço dela, enquanto
ele dizia: quanto tempo, guria, quanto
tempo! Algo desagradou Ana, fazendo-a lembrar da sensação de comer um cáqui
maduro, só que com casca. Mesmo assim – e não se deixando impressionar pelo
sorriso bobo dele a cada frase dela, decidiu que era hora de uma conversa sobre
o passado e achou por bem convidá-lo para um café. Por isso ele estava ali, na
casa dela, para saber sobre o filho que tiveram.
Para Ana,
contar sobre o filho seria como encerrar uma história. Seria a vida se
encarregando de fechar o ciclo. Na
cabeça dela, quando esse encontro acontecesse, os dois estariam maduros,
chorariam um pouco e cada um seguiria seu caminho. Mas depois do reencontro na
sorveteria e agora com a cena no quarto, Ana já duvidava dessa maturidade por
parte dele.
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