quarta-feira, 26 de julho de 2017

Capítulo X - Dizem que a mulher é o sexo frágil (Ana e Sérgio)


Dizem que a mulher é o sexo frágil / mas que mentira absurda...


Assim que Ana saiu do banheiro, viu com assombro, pelo canto do olho, a pochete emoldurada pela bermuda e pela camiseta do supermercado local – tudo no cabideiro do seu falecido pai. Capta também, a imagem grotesca de Sérgio esparramado na cama de casal dos pais dela. Não esperava vê-lo ali, assim: recostado na cabeceira de mogno, ele estava nu, com as pernas cruzadas. O que Ana não capta é o pensamento dele, o que o faz ficar excitado, esse delírio em que ele se vê apoiado na cabeceira da cama, no momento em que ela sai do banheiro, senta na banqueta da penteadeira, solta os cabelos antes arrumados num penteado perfeito. Conforme ela levanta os braços para soltar os grampos, ele desliza o olhar pelas costas seminuas, a bunda ainda levemente arredondada e admira as panturrilhas bem delineadas pelos pés em meia-ponta. Pelo espelho, ela encara Sérgio. Ana tem o rosto oval relaxado, olhos semicerrados e a boca levemente entreaberta. Surge a linguinha rosa, molhando os lábios. Enquanto tira os brincos de pérolas, a alça cai pelo ombro. Ela espera que ele se aproxime e beije o pescoço, os ombros – girar a banqueta e chupar seu sexo – fazê-la derrubar todas as armas femininas da penteadeira.

Quando notou que ela estava à porta, despertou, mas manteve o clima, porque começou a dar umas batidinhas no lençol floreado, enquanto sorria satisfeito:

- Vem, vem! – disse rapidinho, como se estivesse com pressa.

Ana estava estupefata – jamais passou pela cabeça dela que ele agiria assim. Sérgio entendeu errado o convite para um café e, aos olhos dela, parecia ridículo espalhado ali, chamando-a para se deitar com ele. Uma coisa é desejar reencontrar um amor das antigas e romantizar o momento faz parte do imaginário criativo dela, outra coisa é vê-lo deitado na cama, tão à vontade quanto um polvo no fundo do mar.

Será que ele não tinha noção? O que passava pela cabeça dele? Que ela ainda era apaixonada por ele? Que nesses vinte e tantos anos ela tinha esperado por ele, por esse momento? Definitivamente, pelo jeitão espaçoso e pelos olhos vibrantes, ágeis, alegres que sorviam o corpo de Ana, Sérgio só pensava na própria satisfação. Num jogo de corpo, ele se deitou de lado, segurando a cabeça com a mão e acariciando o próprio pau, insistiu:

- Vem logo!

Um homem digno de pena, visto assim da soleira, por uma mulher nem um pouco interessada em reviver amores da adolescência.

- Puta que pariu, Sérgio, entendestes tudo errado. – disse exasperada. – Que merda! Te espero na sala. Vestido.


 

+++

Quando na noite do temporal Sérgio entrou na sorveteria, Ana teve um choque. Embora ela soubesse que cedo ou tarde eles topariam um com o outro, ainda mais num balneário tão pequeno, ela não contava com a decadência dele. A Márcia avisara, entre um café e um doce, que ele estava veraneando no balneário e Ana romantizara um possível encontro: talvez uns grisalhos nas têmporas e mãos com veias salientes, mas ele caminharia firme até ela, numa camiseta polo, bermuda de sarja e uns dockside. Durante o abraço, ela sentiria um Paco Rabanne ou um Dakkar.

Uma poça d’água se formava ano redor dos chinelos de praia. Sérgio trazia os cabelos longos grudados ao redor do pescoço e pingando. Quando balançou a cabeça, Ana se lembrou do cachorro collie que viu saindo banho na pet-shop. A barba por fazer, a camiseta furada no “i” do slogan “Viva o Verão” do supermercado local, as bermudas adaptadas de um jeans. Tudo enfim contribuía para realçar a ação do tempo sobre ele. Não era bem assim que ela imaginava reencontrá-lo.  Só não sabe bem se a decepção que sente fica por conta da aparência esdrúxula ou se pelo jeitão imaturo de sacudir a cabeça e dar uns pulinhos para se livrar da água no corpo e nas roupas surradas.

Evitou tanto o abraço, quanto a mão que teimava em subir e descer pelo braço dela, enquanto ele dizia: quanto tempo, guria, quanto tempo! Algo desagradou Ana, fazendo-a lembrar da sensação de comer um cáqui maduro, só que com casca. Mesmo assim – e não se deixando impressionar pelo sorriso bobo dele a cada frase dela, decidiu que era hora de uma conversa sobre o passado e achou por bem convidá-lo para um café. Por isso ele estava ali, na casa dela, para saber sobre o filho que tiveram.


Para Ana, contar sobre o filho seria como encerrar uma história. Seria a vida se encarregando de fechar o ciclo.  Na cabeça dela, quando esse encontro acontecesse, os dois estariam maduros, chorariam um pouco e cada um seguiria seu caminho. Mas depois do reencontro na sorveteria e agora com a cena no quarto, Ana já duvidava dessa maturidade por parte dele. 

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