sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Capítulo XIV - Nothing else matters


And nothing else matters


So close, no matter how far
Couldn't be much more from the heart
Forever trusting who we are
And nothing else matters
(Nothing Else Matters, Metallica)

Presunçosa e antipática, Sérgio pensou enquanto se vestia.
Ana chamou-o na casa dela, sob o pretexto de um café. Que mulher convida um homem, um ex-namorado, um amor de adolescência para um café sem ter segundas intenções? A presunçosa da Ana, que se achava a tal com o nariz empinado e o andar firme. Sérgio pensou enquanto fechava a presilha da pochete e enfiava os chinelos.
A antipática, quando na cozinha, despejara o café na xícara respingando na toalha e no pires, como se estivesse com pressa. Mais ainda quando cruzara as mãos sobre a mesa e dissera por cima dos aros coloridos:
- Vou te contar uma coisa, Sérgio, porque acho que é o certo e não porque espero alguma atitude tua.
Ana encarava-o séria, tão séria que até parecia triste. Ele ainda ameaçara uma carícia no braço, tentara agarrar sua mão, tocar as unhas feitas, mas ela puxara os braços mais para perto do peito, evitando-o.
“Grossa, também”, pensou o ex-namorado.
- Te peço que me deixes contar tudo primeiro, sem me interromper. Depois, sim. Se ainda quiseres falar comigo. – Determinou, sentada ali na cozinha, rija. Ela abriu e fechou a boca como se estivesse criando coragem, antes de voltar no tempo e contar tudo. Com uma calma inesperada, desfiou sua história, provavelmente ensaiada muitas vezes, escolhendo as palavras. Falou de quando namoravam, de quando ela foi embora, da gravidez, da entrega do filho deles para adoção, de aborto não ser opção na família religiosa dela. Ana não se deteve nem quando os olhos dele se esbugalharam e o queixo foi caindo. Sérgio chegou a se inclinar sobre a mesa, buscando absorver melhor as palavras lançadas pela namorada de adolescência. Vasculhou no rosto, no corpo e no que ela dizia – onde estava a menina daquela época? Que caminhos tão complicados trilhara o amor da sua vida? Por fim, recostou-se na cadeira e abriu os braços, inquirindo:
- Mas como assim, um filho? Como assim, um filho, Ana?
Ela permaneceu quieta.
Ele avermelhou e sacudiu a mesa com a mão espalmada, continuando:
- Nosso? Nosso e tu deixastes eles tomarem o bebê de nós?
Ana encolheu-se na cadeira da cozinha. Embargou a voz quando confessou que andava procurando o filho deles já há algum tempo, pelo menos para ter certeza que ele estava bem. Mas tudo isso sem sucesso até aquele momento.
- Eu tinha 15 anos, Sérgio. Tento me perdoar até hoje jogando a culpa na idade, porque só a inocência mesmo justifica a pouca resistência que ofereci. – disse, baixando os olhos, pela primeira vez desde que se reencontraram.
Ficaram em silêncio pelo que pareceu ser uma eternidade. Cada um absorto no seu café. Ela, esperando alguma atitude madura da parte dele, remexendo a colher na xícara e afastando os farelos de bolo com os dedos gélidos. Ele, surpreso descobriu-se tentando entender a Ana, ao invés de culpá-la ainda mais. Sorvia o café morno e mastigava ruidosamente uma fatia generosa de bolo de laranja. Já bastava o que, nas últimas duas décadas, ela deveria ter se culpado pelo amor inocente deles. Era penitência suficiente. Não era presunção, nem antipatia, nem grosseria: era a culpa, o medo da reação dele, a tristeza profunda de uma mulher a quem lhe foi interrompido ser mãe.
- Quem sabe se eu ajudar podemos encontrar o guri, Ana? Não sei por onde, nem como começar, mas quero fazer parte de agora em diante.
E assim foi que eles encontraram algo em comum, algo que se não os aproximava romanticamente, ao menos os unia por um fruto do amor inconsequente deles de tantos anos atrás.
Ana já podia olhar para ele sem temor qualquer, nem de um abraço, tampouco de reprimenda, mas sim de conluio e cumplicidade.
Sérgio, por sua vez, sentia algo entre a empolgação para bolar um plano de encontrar esse guri perdido e a mais pura felicidade por descobrir que o problema de não ter tido um filho com a mulher, não era por seu sêmen ser fraco. A mulher era quem não conseguia vingar um filho dele.
Um filho. Um filho nascido. Um filho vingado!

Nothing else matters.

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