terça-feira, 15 de agosto de 2017

Meu ícone (mulher de Sérgio)


O ícone


Retangular, fininho, em pé, atraente, mega caro – mas preciso de um. Brilhando na vitrine, branco, preto, dourado, colorido. Devem ter sido feitos para atrair todo mundo. Te fazer desejar ter um. Te fazer economizar, roubar do marido, aceitar o erro no troco, limpar as economias no banco. Só pode. Esse frenesi por uma caixinha de surpresas. Vício. Cigarro a cada meia hora, Zap-Zap a cada quinze minutos. Novela das 3, das 6, das 7, das 9, “fêici” de hora em hora. Preciso de um desses. Sou mesmo uma ET. Nunca passei o dedo numa tela, dessas dos ícones e sem teclas. Como o da Vera, o da Simone, da Neuza. Destrinchar a tecnologia. Curvar a cabeça o tempo todo. Metida, enfiada, perdida, ofuscada pelo brilho do aparato. Preciso de um, dos mais modernos. PRE.CI.SO. Ele está na minha mão, morno já, imóvel, escuro. Basta uma cobrinha com o dedo e ele acorda, chora, diz que quer comida. Um tamagochi. Um nenê que quer atenção. Vou entrar no grupo das gurias no Zap-Zap. Já pensou? Eu no Zap-Zap! Que nem o Sérgio! Bah, que nem o Sérgio! Sentada no sofá, mando uma mensagem: psiu, Mozão, que tal mais tarde...? e ele da poltrona, daquele jeitão dele: ai nêga, mas tu, hein? O celular: uma ponte. Eu no sofá, Sérgio na poltrona. Escrevo aqui, sai ali. Um canal. Uma via. Uma passada de mão na bunda. Vixe, porque estou rindo? Que loucura. Essa merda de aparelho. Mal comprei, já está mexendo comigo. E esse guri? Me cria contas, senhas, atalhos, símbolos novos e mais coloridos. Aqui, só para postar fotos. Aqui, previsão do tempo. E esse verdinho com um telefone? WhatsApp, não conhece? E esse azulzinho com a pombinha branca? Twitter. Não quero. Baixa o Tudo Gostoso, tá? Não, não sou pervertida. É de receita. Baixa o das joias. Jogo, jogo. Baixa o da Globo, rádio, jornal e tv. Vê se tem o Sérgio aí. Transforma ele num ícone. Bota ele na minha tela, no meu dedo, enche meus olhos, me ofusca com ele. Me faz abrir o Sérgio, cada vez que me der vontade.
Alison Guedes Altmayer
29/06/2017

A personagem irá contemplar um quadro (em qualquer espaço: museu, computador, loja de réplicas, etc) e expressará sua emoção, ou não, diante da pintura. IMPORTANTE utilizar fluxo de consciência ou monólogo interior. Sugiro algumas obras, mas podem escolher outra: A persistência da memória de Salvador Dalí, O grito de Eduard Munch, Hospital Henry Ford de Frida Kahlo. 


Técnica: monólogo interior de Édouard Dujardin “Discurso sem interlocutor e não pronunciado através do qual um personagem exprime seus pensamentos mais íntimos, mais próximos do inconsciente, anteriores a qualquer organização lógica, isto é, no seu estado original, por meio de frases diretas reduzidas à sintaxe mínima, de maneira a dar a impressão de não terem sido elaboradas.”

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