O ícone
Retangular,
fininho, em pé, atraente, mega caro – mas preciso de um. Brilhando na vitrine,
branco, preto, dourado, colorido. Devem ter sido feitos para atrair todo mundo.
Te fazer desejar ter um. Te fazer economizar, roubar do marido, aceitar o erro
no troco, limpar as economias no banco. Só pode. Esse frenesi por uma caixinha
de surpresas. Vício. Cigarro a cada meia hora, Zap-Zap a cada quinze minutos.
Novela das 3, das 6, das 7, das 9, “fêici” de hora em hora. Preciso de um
desses. Sou mesmo uma ET. Nunca passei o dedo numa tela, dessas dos ícones e
sem teclas. Como o da Vera, o da Simone, da Neuza. Destrinchar a tecnologia. Curvar
a cabeça o tempo todo. Metida, enfiada, perdida, ofuscada pelo brilho do
aparato. Preciso de um, dos mais modernos. PRE.CI.SO. Ele está na minha mão,
morno já, imóvel, escuro. Basta uma cobrinha com o dedo e ele acorda, chora,
diz que quer comida. Um tamagochi. Um nenê que quer atenção. Vou entrar no
grupo das gurias no Zap-Zap. Já pensou? Eu no Zap-Zap! Que nem o Sérgio! Bah,
que nem o Sérgio! Sentada no sofá, mando uma mensagem: psiu, Mozão, que tal
mais tarde...? e ele da poltrona, daquele jeitão dele: ai nêga, mas tu, hein? O
celular: uma ponte. Eu no sofá, Sérgio na poltrona. Escrevo aqui, sai ali. Um
canal. Uma via. Uma passada de mão na bunda. Vixe, porque estou rindo? Que
loucura. Essa merda de aparelho. Mal comprei, já está mexendo comigo. E esse
guri? Me cria contas, senhas, atalhos, símbolos novos e mais coloridos. Aqui,
só para postar fotos. Aqui, previsão do tempo. E esse verdinho com um telefone?
WhatsApp, não conhece? E esse azulzinho com a pombinha branca? Twitter. Não
quero. Baixa o Tudo Gostoso, tá? Não, não sou pervertida. É de receita. Baixa o
das joias. Jogo, jogo. Baixa o da Globo, rádio, jornal e tv. Vê se tem o Sérgio
aí. Transforma ele num ícone. Bota ele na minha tela, no meu dedo, enche meus
olhos, me ofusca com ele. Me faz abrir o Sérgio, cada vez que me der vontade.
Alison
Guedes Altmayer
29/06/2017
A personagem irá contemplar um
quadro (em qualquer espaço: museu, computador, loja de réplicas, etc) e
expressará sua emoção, ou não, diante da pintura. IMPORTANTE utilizar fluxo de
consciência ou monólogo interior. Sugiro algumas obras, mas podem escolher
outra: A persistência da memória de Salvador Dalí, O grito de Eduard Munch,
Hospital Henry Ford de Frida Kahlo.
Técnica: monólogo interior de
Édouard Dujardin “Discurso sem interlocutor e não pronunciado através do
qual um personagem exprime seus pensamentos mais íntimos, mais próximos do
inconsciente, anteriores a qualquer organização lógica, isto é, no seu estado
original, por meio de frases diretas reduzidas à sintaxe mínima, de maneira a
dar a impressão de não terem sido elaboradas.”

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