sexta-feira, 14 de julho de 2017

Capítulo V - Oh, oh, oh Sweet child o'mine (Ana)

Oh, oh, oh Sweet child o' mine




Minha intenção ao retornar ao balneário não era resgatar nada. Nem a relação deteriorada há décadas com a família, nem com as amigas da adolescência, nem passear pela avenida central, muito menos ficar sentada no jardim cuidando a rua. A razão da vinda era tão somente enterrar minha mãe, fechar a casa e voltar logo para Porto Alegre.  Consegui evitar o aviso de falecimento no jornalzinho local, mas as tias não me deram chance e o da missa de 7° dia ia sair. Com isso fiquei mais um tempinho. Como não podia deixar de ser, o enterro foi uma sucessão de lágrimas, “sinto muito” e beijos melequentos, de gente que eu não via há séculos. Das oito cadeiras em volta do caixão, só três estavam ocupadas pela família composta de tias e eu.

Já em casa, vi na porta da geladeira, um imã sugestivo. A forma de um merenguinho clamou meus olhos secos. Uma delícia em bege e caramelo e um simples número de telefone.

Com isso, acabei cruzando com a Márcia quando fui buscar a bandeja de merengues sortidos, recheados com baba-de-moça e canela, limão ou creme de baunilha. Abraçou-me como só ela sabe fazer, apertou meus braços com carinho, deitou a cabeça de lado e chorou de saudades. Conversamos entretidas enquanto os clientes entravam e saíam até que o guri dela assumiu o atendimento, bufando e resmungando por ter que largar o videogame. Evitou assuntos que só me deixariam pior, mas ou por cumplicidade de amizade da adolescência, ou por romantismo puro, deixou resvalar que o Sérgio estava veraneando. No mesmo lugar. Minha mão cobriu a mão salpicada de açúcar de confeiteiro, como dizendo: é o bastante. E paramos por aí.

No final de tarde, mesmo com o calor úmido, fiz um café forte e sentei no jardim. Ao lado da cadeira, coloquei a mesinha e fechava os olhos cada vez que pegava um doce. Uma indulgência merecida. Mordia o merenguinho, sentia o recheio deslizar pela boca e era tomada de surpresa pelo sabor. Torcia para que fosse de baba-de-moça com canela. Arrepiava-me se fosse de limão. Pensava em madelaines se fosse de creme de baunilha. Fui comendo um por um, enquanto cuidava o movimento da rua de saibro por entre os arbustos do muro. Mas as surpresas ficaram só por conta dos doces, porque a rua estava calma.

Eu não podia esperar outra coisa, que bobagem. Porque se ele passasse em frente, se me visse, se parasse, se viesse na minha direção, o que eu iria fazer? O que eu iria dizer? Se ele me perguntasse o que acontecera, por onde começar a contar?

Contar, contar, contar histórias, contar números, contar dinheiro. Dinheiro. Gente! Dinheiro! Eu e a Márcia ficamos tão entretidas em se rever, em conversar que me esqueci de pagar os doces. Teria que voltar lá e pagar, reencontrá-la e talvez até saber mais. Melhor não. Queria evitar contato, resgate de amizades, possíveis encontros.

Na manhã seguinte, escrevi um bilhete curto e peguei a bike. Uma passadinha rápida no caixa eletrônico para não ficar sem nada na carteira. Juntei o bilhete ao dinheiro, tudo bem dobradinho para ser colocado por baixo da pantográfica da doceria. Não sei que bobagem fiz na bike, pois quando cheguei lá, meu bolso estava vazio, nem sombra de bilhete, de dinheiro, de cartão magnético. Voltei pelo mesmo caminho, cuidando o chão, claro. Mas a rua movimentada pela feira confirmou o que eu suspeitava: já tinham pego meu bilhete dobradinho. A Márcia teria que esperar mais uns dias para receber, pois o dinheiro que restou, eu iria usar ali na feira mesmo.

E assim, incomodada pela perda do dinheiro e do cartão e pela culpa por ter comido uma bandeja inteira de doces, saí para caminhar pela avenida depois da novela das 8.

Alison Guedes Altmayer
9/4/2017



Nenhum comentário:

Semana de 20 a 26 de março de 2023

  Esta semana foi cheia de exames: cardiológicos, de sangue, teste de esteira. Encaixei a academia e os treinos e deu tudo certo no final.  ...