Oh, oh, oh Sweet child o' mine
Minha
intenção ao retornar ao balneário não era resgatar nada. Nem a relação
deteriorada há décadas com a família, nem com as amigas da adolescência, nem
passear pela avenida central, muito menos ficar sentada no jardim cuidando a
rua. A razão da vinda era tão somente enterrar minha mãe, fechar a casa e
voltar logo para Porto Alegre. Consegui
evitar o aviso de falecimento no jornalzinho local, mas as tias não me deram
chance e o da missa de 7° dia ia sair. Com isso fiquei mais um tempinho. Como
não podia deixar de ser, o enterro foi uma sucessão de lágrimas, “sinto muito”
e beijos melequentos, de gente que eu não via há séculos. Das oito cadeiras em
volta do caixão, só três estavam ocupadas pela família composta de tias e eu.
Já em
casa, vi na porta da geladeira, um imã sugestivo. A forma de um merenguinho
clamou meus olhos secos. Uma delícia em bege e caramelo e um simples número de
telefone.
Com
isso, acabei cruzando com a Márcia quando fui buscar a bandeja de merengues
sortidos, recheados com baba-de-moça e canela, limão ou creme de baunilha. Abraçou-me
como só ela sabe fazer, apertou meus braços com carinho, deitou a cabeça de
lado e chorou de saudades. Conversamos entretidas enquanto os clientes entravam
e saíam até que o guri dela assumiu o atendimento, bufando e resmungando por
ter que largar o videogame. Evitou assuntos que só me deixariam pior, mas ou
por cumplicidade de amizade da adolescência, ou por romantismo puro, deixou
resvalar que o Sérgio estava veraneando. No mesmo lugar. Minha mão cobriu a mão
salpicada de açúcar de confeiteiro, como dizendo: é o bastante. E paramos por
aí.
No
final de tarde, mesmo com o calor úmido, fiz um café forte e sentei no jardim.
Ao lado da cadeira, coloquei a mesinha e fechava os olhos cada vez que pegava
um doce. Uma indulgência merecida. Mordia o merenguinho, sentia o recheio
deslizar pela boca e era tomada de surpresa pelo sabor. Torcia para que fosse
de baba-de-moça com canela. Arrepiava-me se fosse de limão. Pensava em
madelaines se fosse de creme de baunilha. Fui comendo um por um, enquanto
cuidava o movimento da rua de saibro por entre os arbustos do muro. Mas as
surpresas ficaram só por conta dos doces, porque a rua estava calma.
Eu não
podia esperar outra coisa, que bobagem. Porque se ele passasse em frente, se me
visse, se parasse, se viesse na minha direção, o que eu iria fazer? O que eu
iria dizer? Se ele me perguntasse o que acontecera, por onde começar a contar?
Contar,
contar, contar histórias, contar números, contar dinheiro. Dinheiro. Gente!
Dinheiro! Eu e a Márcia ficamos tão entretidas em se rever, em conversar que me
esqueci de pagar os doces. Teria que voltar lá e pagar, reencontrá-la e talvez
até saber mais. Melhor não. Queria evitar contato, resgate de amizades,
possíveis encontros.
Na
manhã seguinte, escrevi um bilhete curto e peguei a bike. Uma passadinha rápida
no caixa eletrônico para não ficar sem nada na carteira. Juntei o bilhete ao
dinheiro, tudo bem dobradinho para ser colocado por baixo da pantográfica da
doceria. Não sei que bobagem fiz na bike, pois quando cheguei lá, meu bolso
estava vazio, nem sombra de bilhete, de dinheiro, de cartão magnético. Voltei
pelo mesmo caminho, cuidando o chão, claro. Mas a rua movimentada pela feira
confirmou o que eu suspeitava: já tinham pego meu bilhete dobradinho. A Márcia
teria que esperar mais uns dias para receber, pois o dinheiro que restou, eu
iria usar ali na feira mesmo.
E
assim, incomodada pela perda do dinheiro e do cartão e pela culpa por ter
comido uma bandeja inteira de doces, saí para caminhar pela avenida depois da
novela das 8.
Alison
Guedes Altmayer
9/4/2017

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