Here comes the rain again...
A
Zum-Zum era uma sorveteria tradicional do balneário, que vinha se mantendo ao
longo dos anos, das crises, dos prefeitos e da vigilância sanitária. Com muitas
opções de sabores, casquinha ou cascão e a famosa cobertura de chocolate
crocante, era a grande pedida depois da novela, quando se formava uma fila de
respeito. Então, o ideal era ir durante a novela e evitar assim os indecisos em
frente ao balcão frigorífico.
Há
uns 3 ou 4 verões eles contrataram o Gilnei, um guri que trabalha ali só nas
férias escolares. Entre um “hoje morango com nata”, “capricha na cobertura” e
“aqui seu troco”, acabamos descobrindo algumas coisas cruciais em comum. Uma
delas a paixão pelo nosso Internacional. Admiro a disposição dele, que durante
o dia trabalha de office-boy numa agência de navegação e de lá, vem direto para
o atendimento na sorveteria, sem nem pegar ônibus seletivo. Por essa e por
outras, atribuo ao cansaço, alguns trocos errados.
Numa
noite, ficamos conversando mais tempo, presos pela chuva torrencial que caiu sem
avisar. Foi justamente quando Gilnei me contou que crescera em Cachoeirinha e que
nos verões, os pais gostavam de acampar aqui. Por esses meios inexplicáveis,
encontrou emprego no escritório e seguiu os estudos à noite, não voltando a
morar com os velhos. Mora numa pensão, tem uma barra-forte e é apaixonado por
uma atendente da padaria da esquina.
-
Devo tudo aos meus pais, sabe? Mas o que eles tinham que fazer por mim, já
fizeram. Agora é comigo.
E
assim foi que me contou a história da trajetória dos 22 anos dele, até a chuva
amainar e eu voltar para casa. Lembrei
disso, porque faz uma noite abafada, os azulejos suam e o piso está
escorregadio – prenúncio de temporal. Daí a vontade de dar uma volta. O
problema é que não gosto de levar minha mulher para passear na avenida. Troço chato. Ela vai parando em todas as
banquinhas de artesanato espalhadas pelo caminho e o pior: insinuou querer
dançar no bailinho na frente da igreja. Só que não sou bobo e descobri uma
maneira de sair sozinho para dar uma volta: ir tomar sorvete na Zum-Zum, porque
pelas próprias palavras dela “na minha idade, doce está ficando proibitivo”.
Para mim, esse proibitivo há horas já chegara, mas não ouso dizê-lo. Pelo menos
não tão abertamente. Daí, durante a novela das oito, no mesmo tom usado para
“vistes minha Placar?”, perguntei:
-
Vamos até a Zum-Zum?
A
mulher se remexeu, afundando e esgaçando um pouco mais o sofá. Cruzou os
tornozelos, fincando o calcanhar na havaiana preta e descansou as mãos sobre o
ventre saliente, bem marcado pelo tecido gelado da roupa.
-
Estou vendo a novela, Sérgio. E sabes que na minha idade está ficando
proibitivo um sorvete daqueles.
Enquanto olho para ela,
tenho a impressão de que faria parte da cena, ela recolher um fio de baba com o
dedo. O tempo, ah o tempo, como ele pode ser cruel. Quando estávamos com uns 2 anos de
namoro, minha mulher veio com a novidade que estava grávida. Nem havia me
passado pela cabeça a ideia de um dia casar com ela, não fosse a gravidez.
Ainda lembro de suar frio sob o terno alugado, arrastar os pés em direção ao
altar, olhar em volta e passando um lenço na testa, pensava: “Onde fica a saída
mais próxima?”. Mas enfim, casamos. E o dia seguinte foi igual ao dia anterior,
nada mudara em mim. E a semana seguinte seria igual a anterior, não fosse o
sangramento e a gravidez interrompida. E as outras gravidezes iguais as
anteriores.
-
Bom, vou lá e já volto então.
Ainda
gritei da garagem:
-
Vou de magrela porque o tempo está se armando!
Alison Guedes Altmayer
11/05/2017

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