segunda-feira, 17 de julho de 2017

VII - Sorvete de caju com tâmaras (Ana)


Sorvete de caju com tâmaras


Ana ficou parada um bom tempo olhando para o painel, indecisa entre tantos sabores.

- Eu, se fosse a senhora, escolhia o de flocos. Foi feito hoje. – disse o jovem, apontando para o sorvete dentro do balde branco.

Não foi bem a voz, mas mais o tom usado que a fez passar a atenção do painel para o rosto do rapaz. Fechou os olhos e pediu:

- Repete, por favor. - Passaram-se uns instantes, talvez de hesitação, até que ele disse:

- Se eu fosse a senhora, levava o de flocos que fizeram hoje.

Se eu fosse tu, não contava nada pros teus pais. Esse era o conselho que o Sérgio mais dava quando eles namoraram. Tudo era escondido, tudo era segredo, tudo era proibido. 

E mais uma vez ela estava paralisada em frente a um rapaz, que deveria ter uns 22 anos, buscando nos traços, na forma, no olhar, na voz – algo dela, algo dele. Algo em que se agarrar e poder dizer: és meu, desculpe, mas és meu. Não houve um dia nestes últimos 22 anos que ela não pensasse nele. No que havia sido feito dele. Quem seria ele hoje? E ano que vem, seria alguém com 23 anos.

- Então, senhora, o que vai ser? – insistiu o atendente, mesmo com a sorveteria vazia.

- Caju com tâmaras.

- Casquinha ou cascão?

Silêncio. Se a gente comprar um cascão, dá para dividir. Porque como o Sérgio andava sempre sem grana eles tinham que compartilhar tudo.

- Quantos anos tens?

- Eu? 22. – respondeu com um olhar desafiador e um sorriso indeciso.

Frio. De repente, faz frio dentro dela. Se aqui fosse Porto Alegre, onde ela ganhou o filho, esse rapaz poderia ser ele.

- Vai querer cobertura?

- Vou, sim.

E ele deu às costas. Jogou o pano sobre o ombro esquerdo e caminhou até o recipiente da cobertura, balançando os ombros, com o peito cheio. Parecia tão orgulhoso, tão contente. Ana sentiu as pernas amolecerem e os pés não conseguiam sair do lugar.

Enquanto entregava o sorvete para Ana, Gilnei baixou a cabeça, deixando os cabelos castanhos caírem, mas mantendo os olhos grudados nela, sempre sorrindo, fazendo um floreio com a mão, ainda segurando o pano no ombro.

- É melhor a senhora não sair agora, olha o temporal chegando.

E assim ela ficou ali, não precisava nem pedir. Quando faltou luz e ela gritou de susto, pelos raios, pelos trovões, pela escuridão, pela semelhança, ele puxou a cadeira de palha e sentou na frente dela.


- Eu sou o Gilnei.

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