Sorvete de caju com tâmaras
Ana
ficou parada um bom tempo olhando para o painel, indecisa entre tantos sabores.
-
Eu, se fosse a senhora, escolhia o de flocos. Foi feito hoje. – disse o jovem,
apontando para o sorvete dentro do balde branco.
Não
foi bem a voz, mas mais o tom usado que a fez passar a atenção do painel para o
rosto do rapaz. Fechou os olhos e pediu:
-
Repete, por favor. - Passaram-se uns instantes, talvez de hesitação, até que
ele disse:
-
Se eu fosse a senhora, levava o de flocos que fizeram hoje.
Se eu fosse tu, não contava
nada pros teus pais.
Esse era o conselho que o Sérgio mais dava quando eles namoraram. Tudo era
escondido, tudo era segredo, tudo era proibido.
E
mais uma vez ela estava paralisada em frente a um rapaz, que deveria ter uns 22
anos, buscando nos traços, na forma, no olhar, na voz – algo dela, algo dele.
Algo em que se agarrar e poder dizer: és
meu, desculpe, mas és meu. Não houve um dia nestes últimos 22 anos que ela
não pensasse nele. No que havia sido feito dele. Quem seria ele hoje? E ano que
vem, seria alguém com 23 anos.
-
Então, senhora, o que vai ser? – insistiu o atendente, mesmo com a sorveteria
vazia.
-
Caju com tâmaras.
-
Casquinha ou cascão?
Silêncio.
Se a gente comprar um cascão, dá para
dividir. Porque como o Sérgio andava sempre sem grana eles tinham que
compartilhar tudo.
-
Quantos anos tens?
-
Eu? 22. – respondeu com um olhar desafiador e um sorriso indeciso.
Frio.
De repente, faz frio dentro dela. Se aqui fosse Porto Alegre, onde ela ganhou o
filho, esse rapaz poderia ser ele.
-
Vai querer cobertura?
-
Vou, sim.
E
ele deu às costas. Jogou o pano sobre o ombro esquerdo e caminhou até o
recipiente da cobertura, balançando os ombros, com o peito cheio. Parecia tão
orgulhoso, tão contente. Ana sentiu as pernas amolecerem e os pés não
conseguiam sair do lugar.
Enquanto
entregava o sorvete para Ana, Gilnei baixou a cabeça, deixando os cabelos
castanhos caírem, mas mantendo os olhos grudados nela, sempre sorrindo, fazendo
um floreio com a mão, ainda segurando o pano no ombro.
-
É melhor a senhora não sair agora, olha o temporal chegando.
E
assim ela ficou ali, não precisava nem pedir. Quando faltou luz e ela gritou de
susto, pelos raios, pelos trovões, pela escuridão, pela semelhança, ele puxou a
cadeira de palha e sentou na frente dela.
-
Eu sou o Gilnei.

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