quarta-feira, 19 de julho de 2017

Capítulo VIII - She may be the beauty or the beast (Gilnei)


She may be the beauty or the beast


Dizem que muito do que somos é fruto do que vivemos e também da nossa convivência social, ou seja, o meio nos molda. Mas as coisas que eu não consigo explicar em mim, atribuo à genética – essa desconhecida minha. Torcer pelo Inter, por exemplo, numa família de gremistas fanáticos. Cheguei a ser arrastado junto com meu cobertorzinho para o Olímpico. Não adiantou de nada.  Ou o gosto pela bike ao invés de sonhar com carro. A facilidade para escrever os meus pensamentos, transformá-los em histórias no meio de gente que mal tem o ensino fundamental. E algumas trambicagens, coisa pouca, mas que sem dúvida não herdei nem dos velhos, nem dos amigos. Meu nome também não é aquele eco que às vezes me acorda no meio da noite. Todo mundo me conhece por Gilnei. Mas que nome ela teria me dado? No sonho, ela grita André! e eu correspondo, abrindo os olhos em terror, suando, escutando barulhos no corredor do prédio.

Costumo ficar imaginando como ela é, a minha mãe de verdade.

Antes de dormir.

Durante o trajeto do ônibus.

Na hora do almoço.

Quando eu acordo.

Tudo que sei é que nasci em Porto Alegre, numa primavera pra lá de ventosa e quente e que fui adotado por um casal idoso de Cachoeirinha. Pelo meu reflexo no espelho e por pura dedução, sei que ela é branca, bonita e atraente. E lá no fundo, acho que só vou saber quem eu sou, se eu souber quem ela é.  Fechar o círculo ou encerrar o ciclo, como queiram chamar o encontro das pontas.

Tenho várias hipóteses para ela não me querer, encontrando um prazer mórbido em bolar as histórias, que consomem horas dos meus dias e cansam minha cabeça com voltas e mais voltas. Chego a pensar que estou no labirinto do Minotauro, sem o fio de Ariadne. Por isso, criar a personagem “Sra. MÃE” em homenagem a essa pessoa que me teve, foi como um alívio.  

Por vezes a Sra. MÃE é drogada e foi obrigada pelo serviço social a me colocar para adoção. Daí, num intervalo no escritório, vou acabando com ela na tela do computador, mais ou menos assim:

“Sentada numa rua escura de chão batido e encostada num muro de reboco moído, a Sra. MÃE abraça os joelhos. Sob uma neblina fina de inverno, alguns homens conversam na esquina. Sobem e descem do meio-fio aquecendo os pés metidos em botinas forradas de jornal. Não se incomodam com os vira-latas que vão se juntando ao grupo, buscando o calor da churrasqueira de barril. Ela esfrega a testa nos joelhos e limpa o nariz no moletom. Depois, um pouco antes de se levantar e ir se juntar ao grupo, seca as lágrimas nas mangas puídas. Os homens também não se incomodam com a presença dela, mas não a incluem na conversa. Comem as linguiças assadas, lançam para o alto o cordão com um resto de ponta para ser disputado pelos cães e jogam para ela as partes queimadas, se sobrarem. Tomam a pinga misturada com suco em pó barato direto do gargalho e vão passando a garrafa na roda. O trago ela até pode bebericar, mas que se não se passe, senão leva um safanão no pescoço. Hoje, a Sra. MÃE não vai se drogar, não vai se deixar se usada, nem vai ficar largada atrás do muro, com o moletom preso nos joelhos e a boca cuspindo sangue no capim alto. Só hoje, pelo filho abandonado. Usuária de drogas, desempregada, pobre e com frio, não há um dia em que ela não pense nele e em como ele está.”

No meu delírio de guri rejeitado, essa é a imagem da mãe sofredora e culpada.

Outras vezes eu penso que é a Sra. MÃE_1 e não sabe que eu estou vivo. Tipo novela mexicana. Ela me ganhou, mas disseram que eu morri e me entregaram para adoção (ainda não consegui imaginar como enterraram um caixão sem corpo). Então, nesses momentos, a imagem que tenho dela é assim:
“Sentada atrás de uma mesa de trabalho, numa agência de navegação, MÃE_1 suporta um chefe mal humorado e ganha presentes dos comandantes dos navios. Nos fins de semana, MÃE_1 vai ao cinema, aos barzinhos e sai para dançar. É solteira, descolada e ainda não encontrou um marido. Quando bebe demais, sente um buraco no peito que não consegue explicar.  Ela mergulha nesse buraco e sonda nas profundezas escuras, o que há ali. Toca as paredes frias e úmidas. De repente, o buraco se expande, ela vai despencando e tenta se agarrar no tecido quente, sujando os dedos com sangue negro. Assim que consegue manter seu corpo junto às paredes, como se estivesse escalando uma pedra lisa, o buraco se contrai e aperta o corpo dela, de tal forma que MÃE_1 pensa que vai morrer, enquanto é empurrada cada vez mais fundo. Ela chora, chora, chora. Limpa o rosto sujo de sangue no travesseiro, vomita no balde ao lado da cama e dorme. Jovem, empregada e com um futuro pela frente, MÃE_1  sabe que algo está faltando dentro dela.”

Não pode ser eu, porque eu morri para ela.

É claro que jamais imaginei ela sendo uma pessoa normal, dessas que frequentam a sorveteria ou que trabalham no escritório. Gente normal não abandona filhos. Gente normal não tem problemas nem fica criando histórias mirabolantes para, de alguma maneira, concretizar uma mãe ausente e cruel. Porque histórias interessantes, daquelas que prendem um leitor mais displicente, não podem ser sobre gente sem conflitos, sem grandes dramas. Como essas mulheres que veraneiam no balneário, pedalam para baixo e para cima na avenida, fazendo compras no artesanato da igreja. Curtindo, como todas as outras, as férias dos seus empregos estáveis.

“A Sra. MÃE_2 é uma daquelas pessoas que por mais que o tempo passe, não envelhece, mantendo a beleza. Ela não se curva para o tempo. Trabalha no que gosta. Tem uma casa. Um carro. Não, carro não.  Ela tem uma bike moderninha. Tem cabelos longos e cacheados e traz um segredo nos olhos castanhos. Um dia, ela senta perto de mim e me conta coisas. Quando era adolescente, se apaixonou, engravidou e se viu sem saída com 15 anos. Com os olhos baixos e os cílios molhados, desabafa que os pais eram muito religiosos e que faziam parte da sociedade – essa sendo a desculpa principal para se importarem com o que os outros pensariam. Mandaram a pobre para Porto Alegre para viver com uma parente distante até ter o bebê (eu, no caso). A parente, muito convenientemente, era enfermeira num hospital e sabia os caminhos da adoção. A Sra. MÃE_2, longe da família, dos amigos, da escola, do amor da sua vida de 15 anos e grávida, se deixou levar. Não sem antes dar um jeito de avisar o namorado (meu pai, claro) que estava indo para bem longe. A sua história encaixa direitinho na minha. A essas alturas eu já tinha agarrado as mãos dela. Ela ergue os olhos molhados e vejo meu reflexo neles. Como se fosse uma criança, me acomodo no colo cálido do olhar da Sra. MÃE_2. Gilnei, ela diria baixinho, a enfermeira disse que o melhor seria não chamar meu nenê por nenhum nome para não criar vínculo. Eu tinha 15 anos e acreditei. De madrugada, tiraram ele do meu peito dizendo que era hora. Lembro dele sendo levado, os berros ecoando pelas cortinas do quarto, atravessando o corredor azulejado, e eu num surto gritando: ANDRÉÉÉÉÉÉÉ. ”

+++

A mulher estava parada já há um bom tempo olhando para o painel, parecendo indecisa entre os sabores.

- Eu, se fosse a senhora, escolhia o de flocos. Foi feito hoje.

                                                        Alison G. Altmayer

18/5/2017

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