She may be the beauty or the beast
Dizem que muito do que somos é
fruto do que vivemos e também da nossa convivência social, ou seja, o meio nos
molda. Mas as coisas que eu não consigo explicar em mim, atribuo à genética –
essa desconhecida minha. Torcer pelo Inter, por exemplo, numa família de
gremistas fanáticos. Cheguei a ser arrastado junto com meu cobertorzinho para o
Olímpico. Não adiantou de nada. Ou o
gosto pela bike ao invés de sonhar com carro. A facilidade para escrever os
meus pensamentos, transformá-los em histórias no meio de gente que mal tem o
ensino fundamental. E algumas trambicagens, coisa pouca, mas que sem dúvida não
herdei nem dos velhos, nem dos amigos. Meu nome também não é aquele eco que às
vezes me acorda no meio da noite. Todo mundo me conhece por Gilnei. Mas que
nome ela teria me dado? No sonho, ela grita André!
e eu correspondo, abrindo os olhos em terror, suando, escutando barulhos no
corredor do prédio.
Costumo ficar imaginando como
ela é, a minha mãe de verdade.
Antes de dormir.
Durante o trajeto do ônibus.
Na hora do almoço.
Quando eu acordo.
Tudo que sei é que nasci em
Porto Alegre, numa primavera pra lá de ventosa e quente e que fui adotado por
um casal idoso de Cachoeirinha. Pelo meu reflexo no espelho e por pura dedução,
sei que ela é branca, bonita e atraente. E lá no fundo, acho que só vou saber
quem eu sou, se eu souber quem ela é. Fechar o círculo ou encerrar o ciclo, como
queiram chamar o encontro das pontas.
Tenho várias hipóteses para ela
não me querer, encontrando um prazer mórbido em bolar as histórias, que
consomem horas dos meus dias e cansam minha cabeça com voltas e mais voltas.
Chego a pensar que estou no labirinto do Minotauro, sem o fio de Ariadne. Por
isso, criar a personagem “Sra. MÃE” em homenagem a essa pessoa que me teve, foi
como um alívio.
Por vezes a Sra. MÃE é drogada
e foi obrigada pelo serviço social a me colocar para adoção. Daí, num intervalo
no escritório, vou acabando com ela na tela do computador, mais ou menos assim:
“Sentada
numa rua escura de chão batido e encostada num muro de reboco moído, a Sra. MÃE abraça os joelhos. Sob uma neblina fina de inverno, alguns homens conversam na
esquina. Sobem e descem do meio-fio aquecendo os pés metidos em botinas
forradas de jornal. Não se incomodam com os vira-latas que vão se juntando ao
grupo, buscando o calor da churrasqueira de barril. Ela esfrega a testa nos
joelhos e limpa o nariz no moletom. Depois, um pouco antes de se levantar e ir
se juntar ao grupo, seca as lágrimas nas mangas puídas. Os homens também não se
incomodam com a presença dela, mas não a incluem na conversa. Comem as
linguiças assadas, lançam para o alto o cordão com um resto de ponta para ser
disputado pelos cães e jogam para ela as partes queimadas, se sobrarem. Tomam a
pinga misturada com suco em pó barato direto do gargalho e vão passando a
garrafa na roda. O trago ela até pode bebericar, mas que se não se passe, senão
leva um safanão no pescoço. Hoje, a Sra. MÃE não vai se drogar, não vai se
deixar se usada, nem vai ficar largada atrás do muro, com o moletom preso nos
joelhos e a boca cuspindo sangue no capim alto. Só hoje, pelo filho abandonado.
Usuária de drogas, desempregada, pobre e com frio, não há um dia em que ela não
pense nele e em como ele está.”
No meu delírio de guri rejeitado,
essa é a imagem da mãe sofredora e culpada.
Outras vezes eu penso que é a
Sra. MÃE_1 e não sabe que eu estou vivo. Tipo novela mexicana. Ela me ganhou, mas
disseram que eu morri e me entregaram para adoção (ainda não consegui imaginar
como enterraram um caixão sem corpo). Então, nesses momentos, a imagem que
tenho dela é assim:
“Sentada
atrás de uma mesa de trabalho, numa agência de navegação, MÃE_1 suporta um chefe
mal humorado e ganha presentes dos comandantes dos navios. Nos fins de semana, MÃE_1 vai ao cinema, aos barzinhos e sai para dançar. É solteira, descolada e ainda
não encontrou um marido. Quando bebe demais, sente um buraco no peito que não
consegue explicar. Ela mergulha nesse
buraco e sonda nas profundezas escuras, o que há ali. Toca as paredes frias e
úmidas. De repente, o buraco se expande, ela vai despencando e tenta se agarrar
no tecido quente, sujando os dedos com sangue negro. Assim que consegue manter
seu corpo junto às paredes, como se estivesse escalando uma pedra lisa, o
buraco se contrai e aperta o corpo dela, de tal forma que MÃE_1 pensa que vai
morrer, enquanto é empurrada cada vez mais fundo. Ela chora, chora, chora.
Limpa o rosto sujo de sangue no travesseiro, vomita no balde ao lado da cama e
dorme. Jovem, empregada e com um futuro pela frente, MÃE_1 sabe que algo está faltando dentro dela.”
Não pode ser eu, porque eu
morri para ela.
É claro que jamais imaginei ela
sendo uma pessoa normal, dessas que frequentam a sorveteria ou que trabalham no
escritório. Gente normal não abandona filhos. Gente normal não tem problemas
nem fica criando histórias mirabolantes para, de alguma maneira, concretizar
uma mãe ausente e cruel. Porque histórias interessantes, daquelas que prendem
um leitor mais displicente, não podem ser sobre gente sem conflitos, sem
grandes dramas. Como essas mulheres que veraneiam no balneário, pedalam para
baixo e para cima na avenida, fazendo compras no artesanato da igreja.
Curtindo, como todas as outras, as férias dos seus empregos estáveis.
“A
Sra. MÃE_2 é uma daquelas pessoas que por mais que o tempo passe, não envelhece,
mantendo a beleza. Ela não se curva para o tempo. Trabalha no que gosta. Tem
uma casa. Um carro. Não, carro não. Ela
tem uma bike moderninha. Tem cabelos longos e cacheados e traz um segredo nos
olhos castanhos. Um dia, ela senta perto de mim e me conta coisas. Quando era
adolescente, se apaixonou, engravidou e se viu sem saída com 15 anos. Com os
olhos baixos e os cílios molhados, desabafa que os pais eram muito religiosos e
que faziam parte da sociedade – essa sendo a desculpa principal para se
importarem com o que os outros pensariam. Mandaram a pobre para Porto Alegre
para viver com uma parente distante até ter o bebê (eu, no caso). A parente,
muito convenientemente, era enfermeira num hospital e sabia os caminhos da
adoção. A Sra. MÃE_2, longe da família, dos amigos, da escola, do amor da sua
vida de 15 anos e grávida, se deixou levar. Não sem antes dar um jeito de
avisar o namorado (meu pai, claro) que estava indo para bem longe. A sua
história encaixa direitinho na minha. A essas alturas eu já tinha agarrado as
mãos dela. Ela ergue os olhos molhados e vejo meu reflexo neles. Como se fosse
uma criança, me acomodo no colo cálido do olhar da Sra. MÃE_2. Gilnei, ela diria
baixinho, a enfermeira disse que o melhor seria não chamar meu nenê por nenhum
nome para não criar vínculo. Eu tinha 15 anos e acreditei. De madrugada,
tiraram ele do meu peito dizendo que era hora. Lembro dele sendo levado, os
berros ecoando pelas cortinas do quarto, atravessando o corredor azulejado, e
eu num surto gritando: ANDRÉÉÉÉÉÉÉ. ”
+++
A
mulher estava parada já há um bom tempo olhando para o painel, parecendo indecisa
entre os sabores.
-
Eu, se fosse a senhora, escolhia o de flocos. Foi feito hoje.
Alison G. Altmayer
18/5/2017
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