quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Você é linda, mais que demais.

VOCÊ É LINDA, MAIS QUE DEMAIS. 

O temporal atingiu Sérgio no caminho para a sorveteria, de tal forma que chegou a encharcar os cabelos, fazendo-os grudar no pescoço e ao redor do rosto. As roupas, então, em apenas uma quadra pesavam o dobro. Os chinelos resvalavam pelos pedais, o que não o impediu de passar pelas poças, respingando o barro nos pelos das pernas e nos pés. Fugia dos raios, com medo que um caísse numa árvore da avenida.
Debaixo do alpendre da igreja, Seu Manuel, vendedor da carrocinha de doces, até pensou que se tratava de um guri se divertindo num dia de chuva: livre, moleque, destemido. E era exatamente assim que Sérgio se sentia, fora o detalhe de não querer morrer daquela maneira: com um raio caindo na cabeça, espalhando-se pelo corpo, pelos pés, pela bike até fazer terra. Ou será que os raios vinham de baixo para cima? Não lembrava mais. Agora tanto faz, estamos indo de volta para casa – não! Não dá para cantar essa música, porque não era para casa que ele estava indo, era para a sorveteria.
Lá chegando, largou a bicicleta de qualquer jeito no chão. Entrou. Sacudiu-se para se secar e foi chovendo água para todos os lados. Via-se jovem, cheio de vida depois da pedalada rápida. Ria, enquanto tentava, com as mãos, secar os braços. Nem passou pela cabeça dele que a sorveteria poderia ter cliente numa noite dessas.
Foi quando a viu.
Linda.
Mais linda do que aos 15 anos. A primeira imagem que encontrou para defini-la foi: em forma. As pernas cruzadas ainda davam os ares de bailarina. E a regata justa não mostrava barriga nenhuma. Os braços torneados e morenos. E o pescoço! O pescoço não terminava numa papada, nem num queixo duplo. O rosto. Ah o rosto! Que rosto! Os cachos continuavam lá, mais curtos um pouco, caindo pelas costas. Depois definiu-a jovem e elegante e por último, quando chegou bem pertinho, cheirosa.
Pelo jeito Ana também estava encantada com ele porque sorvia-o com o olhar.... da cabeça aos pés e de volta à cabeça. Surpresa, talvez tentando conter a atração que sentia por ele, nem notou que ele ameaçou abraçá-la, tampouco viu a mão estendida. Ficou ali, em pé, em frente a ele. Fitando-o com o queixo erguido, os cílios piscando. Sérgio sentiu aquele desejo imenso de antes, voltar. Queria agarrá-la ali mesmo, que se danasse o Gilnei. Com certeza ela queria se deixar agarrar, conhecia a Ana. Todo o retraimento era por pura timidez, por vergonha do atendente da sorveteria. E isso ficou provado no fim do bate-papo, quando ela esperou o rapaz ir ao banheiro para convidar Sérgio para um café na casa dela. Poderia ter convidado para um café em qualquer outro lugar, mas não, convidou para ir na casa dela. Ele se sentiu empolgado, louco que chegasse o outro dia.
Voltou para casa quando o temporal passou e cada vez que lembrava do convite, se soltava do guidão e esfregava as mãos uma na outra.

Alison Guedes Altmayer

20/07/2017 – Escritores de Quinta 

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