VOCÊ É LINDA, MAIS QUE DEMAIS.
O
temporal atingiu Sérgio no caminho para a sorveteria, de tal forma que chegou a
encharcar os cabelos, fazendo-os grudar no pescoço e ao redor do rosto. As
roupas, então, em apenas uma quadra pesavam o dobro. Os chinelos resvalavam
pelos pedais, o que não o impediu de passar pelas poças, respingando o barro nos
pelos das pernas e nos pés. Fugia dos raios, com medo que um caísse numa árvore
da avenida.
Debaixo
do alpendre da igreja, Seu Manuel, vendedor da carrocinha de doces, até pensou
que se tratava de um guri se divertindo num dia de chuva: livre, moleque,
destemido. E era exatamente assim que Sérgio se sentia, fora o detalhe de não
querer morrer daquela maneira: com um raio caindo na cabeça, espalhando-se pelo
corpo, pelos pés, pela bike até fazer terra. Ou será que os raios vinham de
baixo para cima? Não lembrava mais. Agora tanto faz, estamos indo de volta para
casa – não! Não dá para cantar essa música, porque não era para casa que ele
estava indo, era para a sorveteria.
Lá
chegando, largou a bicicleta de qualquer jeito no chão. Entrou. Sacudiu-se para
se secar e foi chovendo água para todos os lados. Via-se jovem, cheio de vida
depois da pedalada rápida. Ria, enquanto tentava, com as mãos, secar os braços.
Nem passou pela cabeça dele que a sorveteria poderia ter cliente numa noite
dessas.
Foi
quando a viu.
Linda.
Mais
linda do que aos 15 anos. A primeira imagem que encontrou para defini-la foi:
em forma. As pernas cruzadas ainda davam os ares de bailarina. E a regata justa
não mostrava barriga nenhuma. Os braços torneados e morenos. E o pescoço! O
pescoço não terminava numa papada, nem num queixo duplo. O rosto. Ah o rosto!
Que rosto! Os cachos continuavam lá, mais curtos um pouco, caindo pelas costas.
Depois definiu-a jovem e elegante e por último, quando chegou bem pertinho,
cheirosa.
Pelo
jeito Ana também estava encantada com ele porque sorvia-o com o olhar.... da
cabeça aos pés e de volta à cabeça. Surpresa, talvez tentando conter a atração
que sentia por ele, nem notou que ele ameaçou abraçá-la, tampouco viu a mão
estendida. Ficou ali, em pé, em frente a ele. Fitando-o com o queixo erguido,
os cílios piscando. Sérgio sentiu aquele desejo imenso de antes, voltar. Queria
agarrá-la ali mesmo, que se danasse o Gilnei. Com certeza ela queria se deixar
agarrar, conhecia a Ana. Todo o retraimento era por pura timidez, por vergonha
do atendente da sorveteria. E isso ficou provado no fim do bate-papo, quando
ela esperou o rapaz ir ao banheiro para convidar Sérgio para um café na casa
dela. Poderia ter convidado para um café em qualquer outro lugar, mas não,
convidou para ir na casa dela. Ele se sentiu empolgado, louco que chegasse o
outro dia.
Voltou
para casa quando o temporal passou e cada vez que lembrava do convite, se
soltava do guidão e esfregava as mãos uma na outra.
Alison
Guedes Altmayer
20/07/2017
– Escritores de Quinta
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